segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Se acaso




Se acaso vires no inverno uma pétala vermelha na neve,

Ou no outono um trevo amarelo deitado na estrada de chão,

Saiba que a vida vence o tempo e em silêncio faz brotar a beleza da próxima estação.

Se acaso vires o sol com seus raios esgueirar-se nas montanhas,

Ou nos jardins abelhas, borboletas e beija-flores sobre o néctar da flor,

Saiba que é primavera a estação das cores e das delícias de aromas suaves.

Se acaso vires no mar barcos à vela, windsurf e garotos correndo na areia,

Ou asa deltas no ar sob o manto azul do céu,

É o verão dos sonhos vívidos onde o amor e a alegria não têm hora para acontecer.

Se acaso nada disto vires,

Acorda, pois a vida é breve,

Um conto ligeiro na espera do trem da meia-noite.

terça-feira, 11 de agosto de 2009

O Que Fazer Se...?



O que fazer se ontem eu não pude adejar no vento,
o redemoinho se foi e eu sequer dancei à sua volta.
Se no arco-íris, eu não pude semear a flor-de-lis que destila a ternura,
E se nas nuvens eu não pude construir a minha casa da árvore?

O que fazer se a neblina fez nascer a relva que descansa os pés,
mas minha alma sozinha e sedenta corre atrás de ribeiros que o tempo secou?
Se as marés levaram os sonhos para o outro lado do amor,
e se o silêncio fez ruir a canção que guiava as estrelas?

O que fazer se o sorvete de morango derramado fez brotar o desejo,
Se a calçada onde passam pés sem destinos certos,
ruma para ruas escuras que o olhar teme percorrer?
Se as amoras que brotam no verão negam sua cor e frutos a mim?

O que fazer se já não sei se a poesia leve leva além o tom da esperança,
Se me faz bem saber da noite com janela aberta para a lua ali,
Se o olhar não pode ver além da vida, a lida que desfaz o pote junto à fonte?

O que fazer se eu aqui não passo de uma doce ilusão,
Enquanto espero o ignoto?
Nada, simplesmente nada,

Além da beleza, pois a vida é a arte de saber esperar,
O tempo que não mente e germina a justiça do amor que fecunda os sonhos.

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Estação Das Flores



A primavera é assim,

Chega despretensiosa e faz-se notar imperiosa.

No campo as flores versam o inverso do inverno,

A vida vívida colore o mundo em tons diversos;

A açucena deu seu broto ao olhar de quem passa na estrada,

O beija-flor voou riscando o céu de azul-turquesa,

As borboletas encantam enquanto a mãe menina colhe o botão de rosa.

A primavera é assim,

Não tarda expor o amor que o inverno fez hibernar no tempo,

É verso de canção de poetas renascidos das cinzas de verões de outrora;

E eu meu senhor, daqui da minha janela,

Vejo jardins floridos que dão à alma do artista o tom de beleza no olhar.

Olhar que compreende o mar, o sol, a chuva, o mundo e o amor.

A primavera é assim...

Esse encanto multicor.

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

O Véu Da Noite




O véu da noite deslisa na face da lua;
daqui da minha janela avisto as estrelas,
enquato a brisa leve que vem do mar assopra
em mim a saudade de outonos idos.

Daqui da minha janela eu vejo o mar,
suas ondas tecem a valsa encatada,
e versa o tom de poemas belos,
o aroma que da areia vem,
traz o sabor das amoras das montanhas.

O véu da noite continua ali,
e eu, calo em mim a grandeza desse instante.

segunda-feira, 27 de julho de 2009

Marés de Mim




Às vezes penso que a minha alma é como um mar,

suas ondas oscilam e vão dar na eternidade das pedras.


O meu olhar é como rota de navios que seguem os ventos,

a minha alma é do mundo a alma que refaz-se ao sol.


Sou poeta solitário, feito barco a vela em marés de invernos.


Meu canto, pranto de açanhaço no sertão agreste;

meu sorriso é brisa que avisa o tom da cor da noite,

nota de uma melodia que adia os sonhos.


Sou marujo da esperança,

navego mar aberto e aborto o tempo que traga a fumaça,

meras nuvens,

meros contos infantis,

mera dor,

esmera em mim a lápide do ontem,

enquanto no terraço o violino toca a valsa do amor,

e Mozart esfrega na pedra do desejo

a canção da alvorada,

banhada nas águas de oceanos meus,

que marejam em mim o cais do meu olhar longínquo.

sexta-feira, 3 de julho de 2009

Partes de Mim


Parte de mim caminha absorta nas estrelas,
A outra parte se abriga na lua.

Parte de mim desliza no arco-íris,
A outra parte se esconde em lamparinas empoeiradas.

Parte de mim cavalga sobre as nuvens,
A outra parte flutua nos mares.

Parte de mim habita desertos como a fênix,
A outra parte respira nas chuvas.

Parte de mim perfuma as flores,
A outra parte poliniza sonhos por ai.

Parte de mim usa terno e gravata,
A outra parte descalça os pés enquanto vive.

Parte de mim discursa os filósofos gregos,
A outra parte conta contos de piratas e heróis.

Parte de mim faz do altar o lugar do amor mais sublime,
A outra parte é palco onde o divino protagoniza o ato/afeto.

Parte de mim usa barba e bigodes com pelos esbranquiçados,
A outra parte faz bolinhas de sabão e solta pipas por ai.

Parte de mim mora na rua fria da realidade,
A outra parte dança na avenida azul da imaginação.

Parte de mim versa a dor que provoca a angústia ali e além,
A outra parte é poeta solitário que ama o belo sem dor.

Parte de mim despedaça os mundos que povoam o medo,
A outra parte em pedaços junta os cacos de um sonho infantil.

Parte de mim sente saudade enquanto as cascas em mim se desfazem,
A outra parte renova-se em esperança a cada ressurreição.

Parte de mim ama a vida que se da na simplicidade,

Porém só minha totalidade ama o Cristo: Poema mais puro do amor.

quarta-feira, 1 de julho de 2009

Náufrago


Hoje navego olhando as estrelas,
Velejo de perto de mim para longe de mim mesmo,
Velhas marés de invernos em mares sombrios.

Os ventos daqui sopram forte,
E o cais sequer se avista a beira mar,
Sou pescador de ilusões e a vida está povoada delas.

Absorto no meu mundo de estrelas e sonhos,
Vou desenhando um céu só meu no teto do quarto,
Um céu de lantejoulas prateadas que refazem o afeto.

Sou náufrago do tempo,
Caravela de piratas que resiste à fúria das águas,
Diamante preso em iceberg branco em mar azul.

Sinto-me sem respostas para o simples,
Sem saídas para o belo,
Sinto-me só, mesmo não estando.
Sinto-me, apenas sinto.