quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Um CANTINHO Em Gaia - PORTUGAL


O relógio na parede indica que já é noite,

São dezenove horas,

Entretanto, o sol insiste em esconder as estrelas.

O trem partiu e sua buzina ainda ecoa aos meus tímpanos.

Ela sempre está viçosa,

A Vila Vila Nova de Gaia,

Estação de tom amarelo,

Daquele que somente as carambolas têm quando maduras.

Parada ali, sua face aberta para a Rua Visconde das Devesas.

Minha alma refestela-se no Cantinho,

Um restaurante na altura onde os pés querem descanso.

O número? 84.

Sinto-me absorto;

Não sei definir o que espero.

Não espero! Simplesmente vou indo ao vento,

Um frescor que varre as ruas, enquanto areja minha alma.

Sigo com o trem que partiu,

Deixando o meu corpo na última estação,

Na cozinha, Dona Raquel prepara a ceia;

O Sr. José Manoel refresca-se à sombra, enquanto sua miuda desperta.

Por estas terras amizade tem um preço,

Qualquer rosto que sorri é pátria.

Mitigamos prosas leves à roda do altar da solidão.

A donos de bares, restaurantes e balcões de lojas eu vou me fazendo notar.

Como já disse: ´por aqui amizade tem um preço´.

A poesia é assim, às vezes se faz prosa em beira de estrada.

O poeta é um carente do fascínio da vida e das coisas simples.

Há poesias que nascem à beira do fogo,

Outras eclodem quando não há papéis nem lápis.

É isso mesmo, às vezes poesia é prosa que dá saudade,

Uma prosa solitária à cem metros da estação de trens que partem

E transportam almas, deixando corpos exauridos para trás.

O Cantinho tem sabor de Brasil,

Fala ´difrente´ e ´pois, pois´.

Mas que importa, se os José daqui e são como os Zé de lá?

A minha alma é universal,

Sou cidadão do mundo.

De qual mundo?

O mundo da minha solitude, aberto a todos os Zé do mundo.

O meu mundo é um mundo pequeno na órbita de outros pequenos mundos.

Estou aqui, no cantinho do meu coração,

sorvendo a paz que pode-se encontrar no Cantinho.

A poesia que nasce em mim é alantejana,

Percorre o D´ouro,

e ancora no Porto.

Quanto a mim, vou seguindo em silêncio a minha alma,

Assim, vou escrevendo com caneta e papel,

No trem que a transporta para o infinito,

Enquanto o meu corpo recosta-se à espera da vitela estufada.

Isso sim, é um poema para não esquecer.



sábado, 31 de julho de 2010

À Minha Menina




A beleza tem um nome que escondo nas tabernas da alma.

Seu olhar é sublime,

Sua singeleza me encanta quando sorri.

Ela não fala muito, mas muito fala enquanto cala a alma.

Seu olhar é como flecha aguda,

Sua ironia sabe encantar o seu rosto vívido.

Sou vítima do seu abraço encantador.

Seu nome é doce como as amoras.

Sou pai de uma menina meiga e silente.

Arguta, sabe fazer o seu próprio caminho.

Esconde na não palavra o seu amor,

Mas transpira saudade e respira uma nostalgia leve.

É como uma rosa, bela e tenra,

Mas sua ternura faz-me sentir oceano.

Canta, encanta e trança a alegria com a armadilha de um terno olhar.

Sou sua presa desde que nasceu, puro amor do meu amor.

À Minha Poetiza



Sinto que o tempo tem sido gentil comigo,

As horas passam e eu sequer me apercebo.

Meu coração é como vidraça quebrada, fragmentos.

Vou seguindo a estrada enquanto os trilhos percorrem minhas veias.

Para onde vai esse trem? Não sei dizer, sei sentir.

Um olhar se debruça na janela da lua,

O céu feito cortina se estende entre as colunas siderais.

Novena de meninos que não distinguem os sinos.

Os meus pés perseguem o sol,

E à sombra vou escrevendo o meu destino.

Sou poeta de alma de outonos frios.

Sou cantor de versos no cair das folhas.

Sinto saudade de tudo que se chama simplicidade.

Tenho recebido poesias do meu amor.

Seus poemas fazem-me flutuar nas nuvens densas de mim mesmo.

Seus primeiros versos são para a eternidade.

Sou um pai feliz.

Sou amado pela minha poetiza.

Sou um homem que lê versos de amor sorridente,

Sinto-me aqui, num lugar no mundo, distante, entre o amor e o silêncio.

O meu olhar brilha nas estrelas,

Espero que elas saibam vê-lo saudoso.

O amanhecer aqui é sob a névoa da solidão.

Vivo entre adegas, barcos e altares, mas vou indo.

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Portugal - um lugar para amar


Esbarro-me agora na angústia que provoca a incerteza.

O meu velho coração tocado a anlodipino segue a poeira da estrada.

As quitandas daqui abrigam bêbados e troianos.

E os presentes são cavalos,

Grandes monumentos de madeiras frágeis que abrigam homens e flechas.

É verão e o mar é gélido como gélidas são as horas.

Na areia os pés desejam outros ares de mares quentes.

Eu sou desejo entre Fátima e San Tiago da Compostela.

Em Fátima eu tenho um céu azul-celeste,

Em San Tiago somente o caminho.

Assim, prefiro me guiar pelo céu, pois por aqui os caminhos são turvos e as pedras ponteagudas.

Pelo menos no céu a gente não tropeça nas estrelas.

Tenho andado sobre trilhos; sonho de menino de infância opaca.

É que nestas terras a gente tem que se fazer criança para ser forte.

Em mim, a poesia estava adormecida,

Mas as flores me instigaram aos versos.

Nada como um bom vinho e um porto.

Sinto-me num exílio sem os beija-flores,

Sem o frio que me aquece os sonhos,

Mas vou seguindo veredas minhas de ternura e fé.

Se não há pão, há paz,

Se não há dracmas, há esperança,

Se há amor, então sou pleno.

Sinto a poesia trazer a primavera.

O fato é que em mim, moram as quatro estações.

Quem quiser me ver, por favor,

Espreite a fechadura do tempo.

Caso não me encontre, lembre-se,

Estou em algum navio lutando contra piratas ébrios.

Sou barco a vela que veleja o ignoto.

Se o vento sopra, vou mais adiante,

Se o mar se cala, calo eu.

Por aqui só há sol, lua e meus anelos.

O que anelo? Sei lá! Eu nunca soube.

Desejo o vento, o mar e o amor.

Desejo velejar minha alma,

Enquanto velejo o mundo.

Desejo ser uma ave junto ao cais.

Sim, eu desejo o impossível.

Por isso minha alma sobrevive em esperança.

Não quero a mediocridade, tampouco a mesmice.

Venho de um país chamado aventura.

Com agulha e linha vou tecendo a história,

A minha história. Não é o bastante?

Sigo alinhavando amor, sorriso e respeito.

Semeio a semente dos sonhos e do amor.

À todos os que me amam ofereço o mar,

O ar, o céu, o mundo e a doçura de velejar

Na sua própria alma, velejando em mim.

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Véspera



Hoje eu acordei sentindo-me preso como uma ave vencida na gaiola.

É véspera de 02 de Julho, data que me lembra a liberdade.

Não me sinto com vocação para Peru.

Por que? Perus morrem em vésperas.

Eu quero o canto dos pássaros,

O vôo das garças, livres nos céus de meu Deus.

Eu quero o mar, o ar e o sol da liberdade.


Adoeço quando em casulos.

Emudeço em mim o meu canto se não sorvo a alegria.

As janelas da esperança dão passagem ao vento e à luz.

Eu quero um país de homens livres. Seria possível?

Uma terra onde justiça, dignidade e respeito sejam o prato do dia.

Da favela é possível ver o sol nascer dourando o olhar?

No banco da praça é possível dormir confortável ao frio?


Do cárcere é possível a juventude sonhar com uma pátria livre?

No Congresso Nacional é possível a honestidade?

Na igreja é possível o Cristo sem efígie?

Entre muros a sofreguidão devora as horas,

Já é tarde e o outono abre uma rua para a saudade.

Os raios de luz do sul focam o retrato na parede do desejo,

O rosto do menino ilumina a via do homem que havia de vir.


Descalço, sobre trilhos, o chão devora os pés dos que trafegam,

A história ensina o caminho de como se dançar a valsa da vida.

Sua alma mansa não amansa o tempo que insiste em não parar.

Sua poesia sonora faz-se ouvir nas asas das gaivotas que passeiam em silêncio,

E me remete ao frio e ao fio que vem lá do sul, que desperta as aves.

As marcas dos vergões da tristeza riscam o corpo no cepo dos que esperam.

Que vergonha se me dá na face rubra cheia de palavras caladas.


Porta entreaberta onde a dor de quem caminha em trapézio equilibra-se.

O escultor dá forma ao homem com granito e da pedra arranca eternidade.

Perfume de quem diz o que o mundo quer calar.

Oferta derramada no altar da esperança de um amor feito poesia.

A sala acolhedora da ternura num instante grita o amor que instiga a morte.

Frasco de perfume aberto para destilar poemas sinceros.

Uma voz se fez ouvir entre abraços idos.


Uma noz, partida na comunhão dos que vivem na lembrança.

Anzol posto na garganta de quem canta o canto da partida.

Resgate de eternidade na finitude do olhar que ancora o afeto.

Sorridente, a vida segue o seu caminho e percorre o tempo.

Eu percorro os pensamentos, enquanto o sangue me percorre as veias.

Ergue-se uma nova canção, numa nova estrada, para um novo mundo de rara beleza.

Em mim exala o aroma que o desejo instilou na espera, ao soar do sino.

sábado, 19 de junho de 2010

Mera Repetição



Tique-taque, tique-taque...

Mera repetição!

A vida é como o movimento do relógio.

Nela repetimos atos, fobias, anseios e alegrias.

Repetimos as coisas leves, sutis e pesadas.

O ciclo vicioso da vida expele seu aroma outra vez.


Tique-taque, tique-taque...

Parado ali, o ritmo da espera acorda a aurora.

O tempo é voraz, não espera por ninguém;

É como um trem que passa nos trilhos do olhar.

A lâmina corta na alma o tormento.

A dor se abriga entre juntas e medulas.


Tique-taque, tique-taque...

O adulto de hoje repete a criança de ontem.

Reedição? Certamente.

Coisas do inconsciente! Verdade intrínseca.

Reminiscências desveladas na anaminese do espelho.

Solfejo de ninar cantarolado em silêncio na penumbra do quarto.


Tique-taque, tique-taque...

Sisifo ainda está ali subindo a montanha: posso vê-lo daqui.

A pedra nunca pára no topo e a alma não se sabe sossego.

Tudo faz o seu giro no fulcro do anelo.

Mera repetição! É isso que é a vida, mera repetição!

Parece que não sabemos fazer diferente.


Tique-taque, tique-taque...

Os ventos, os rios e as gerações fazem os seus constantes circuitos.

Batida natural de coisas que não se cansam de andar em círculos.

Os homens são velhas melodias tocadas num eterno sofrer.

Nascem, vivem, morrem e mais nada.

A dança da vida inspira a dança devida na dúvida.


Tique-taque, tique-taque...

O sol dá o seu giro, mas amanhã estará aqui no mesmo horário.

Tudo gira; gira o mundo,

Nós giramos e gira a roda-gigante.

Sisifo ainda está ali, a pedra sempre lhe escapa das mãos.

Alguém ai fora pode me dizer o que é vórtice?


Tique-taque, tique-taque...

A alma gira em torno espírito,

O corpo gira em torno da alma,

O mundo circunda o corpo,

E este gira sem parar em torno do meu pequeno mundo.

Quanto a mim, gravito na órbita daquilo que em mim se sabe esperança, amor e poesia.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Poetas Fingem



O poeta é um fingidor...

Finge a dor nas palavras.

Atormenta-se com a dor de seus próprios fracassos.

O poeta é um fingidor...

Finge amor na dor que vem da vida e da morte.

Aquece a alma na fogueira do tempo.

O poeta finge a dor...

Dor do mundo e de si mesmo.

Os poetas e os atores comem na mesma cuia: fingem.

O poeta finge não sentir a dor que o atormenta.

Um poeta finge...

Simplesmente finge fingir.

Um poeta se esconde atrás das palavras.

As palavras fingem a dor.

A dor é fingida nos versos.

A dor finge o poeta...

Os versos dão à dor do poeta um tom.

Os poetas são como os outros homens que fingem.

Sou poeta e finjo.

Não finjo porque sou poeta,

Finjo porque sou como os outros homens.

Os homens fingem não serem poetas,

Fingem não sentir dor,

O amor paradoxalmente é certa forma de dor.

O poeta é uma dor que finge as palavras.

É dor de amor que vence a razão.

É razão que finge nas palavras o poeta que finge não sofrer.

A dor é um fingimento.

O poeta finge sentir, finge amar e finge estar vivo.

O poeta, a dor e o ato de fingir são fingimentos.

O poeta cinge a dor em si.

Todos sentem dor e fingem não serem poetas.

Nessa vida somos todos poetas.

Todos velamos a vida nas palavras.