domingo, 10 de outubro de 2010

Morrendo à Luz





Por que borboletas morrem à luz de lâmpadas acesas?

É simples dizer,

Elas vivem a eterna busca da luz de fora do casulo.


Uma espécie de eterna imperfeição, se sabem incompletas.

Mesmo fora da escuridão que vestiam-nas, 


Seus instintos não se deram conta da saída.


Só busca a luz quem se sente em trevas. 

Borboletas padecem de um mal crônico,

Procuram a eterna luz que suas almas buscaram na transformação.


Se borboletas não têm consciência de si mesmas fora do casulo?

Penso que não, elas sequer sabem que foram feias lagartas um dia.

Talvez, seja o fato de não terem percepção de sua beleza,


Elas procuram a luz porque guardam em si o desejo do caminho percorrido para a liberdade.

Daí a eterna busca por sair do escuro casulo inconsciente.


Por que as borboletas morrem à luz?

Porque vivem a ânsia de nascerem sempre...


Renascerem...


Eclodirem, é a palavra que melhor expressa delas o latente.

Desse modo posso pensar que às vezes, 


A luz que nos transforma é a luz que nos mata.


quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Caminhos Para Os Pés




Hoje eu acordei pensando a vida e me deparei com o silêncio.

Um som que vem da rua me dá asas para sair por ai alhures: o crepitar das folhas.

Ao fundo eu ouço o Divine tocar seu saxofone encantador: Due Season.

Divago em mim e meu mundo se torna ignoto.

Uma melodia se faz ouvir enquanto da vidraça estilhaçada recolho os cacos.

A minha alma parece ricochetear nas paredes dos meus sentimentos.

Como ondas do mar minhas emoções oscilam,

Ora estou forte, ora me sinto fraco.

Sinto-me gestando mundos desconhecidos.

Da angústia espero ver o broto de uma flor que vence o tempo.

Amo as flores quando vicejam nas manhãs de sóis brandos.

Algo em mim espera o raiar do dia.

Como será a luz depois da aurora?

O alvor do vento dissipa em mim a alma ansiosa.

E na estação apropriada eu descansarei a minha espera.

Eu sei que há um caminho à espera dos meus pés.

Às vezes eu penso que sou eu que faço os caminhos,

Entretanto, logo descubro que estes já estão feitos,

E assim, viver, para mim, se torna a simples façanha de encontrá-los.

Há caminhos entre as árvores, nos bosques.

Há caminhos nos desertos, na areia.

Há caminhos nas planícies, nos prados.

Há caminhos vivos e caminhos mortos.

Há caminhos no coração, no mar e no céu: nas estrelas.

Há caminhos que se cruzam e caminhos paralelos.

Há pés para todos os caminhos e caminhos para todos os pés. 

Há muitos descaminhos nesse mundo de meu Deus.

Eu estou aqui parado, numa encruzilhada.

Não me apavoro, pois quem me mandou esperar disse-me: “Eu sou o Caminho”.

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Pequeno Sol de Inverno



Eu amo a estrada porque sinto que amo o mundo.

Minha alma se refaz no encontro com o belo.

A beleza é como vinho doce bebido em taça de cristal.

Eu amo os sóis que nascem nas manhãs de todas as estações.

Mas dos sóis o que mais amo é o meu pequeno sol que aquece o inverno.

Por que digo que o sol é meu?

Porque sua luz me habita os sonhos.

Sou filho do vento e vôo por ai na aurora à luz do tempo.

Meus pés são alados como os dos serafins,

Vejo-me absorto por ai à procura da minha sombra.

Ainda vejo velhos marujos no meio dos mares,

Piratas, caçadores de aventuras nas neblinas das horas.

As horas aram a terra onde redemoinhos moleques brincam.

Hoje eu encontrei o sol e este me fez cantar a canção da saudade.

Sinto saudade do tempo em que pequeno eu era o sol.

Aliás, nessa vida eu já fui muitas coisas: vento, sombra, sorriso e lágrima.

Hoje o que me resta é o horizonte.

Estou sentado na pedra da espera.

Daqui os pássaros gorjeiam e voam em bandos.

Já não posso voar mais,

Aquieto-me enquanto os meus olhos seguem os macaquinhos serelepes

Que saltitam inquietos sobre os fios dos postes da minha rua.

Sem culpa,

Sem dívidas,

Sem ansiedade,

Eles simplesmente seguem sem se importar com o amanhã.

Segredam coisas,

Observam os homens e sequer se incomodam.

O sol está ali,

E daqui da minha janela eu, douro a pele sob os seus raios suaves.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Partida





Ir embora é condição de quem veio ou está.

Partir é dividir coisas,

É fragmentar mundos,

É separar pessoas.

Pessoa tinha razão: “Navegar é preciso...”

Parto porque partindo, reconstruo-me.

Parto porque partindo posso sentir saudade.

A saudade é doce quando pertencemos ao que amamos.

Amar é possuir as coisas sem dominá-las.

Amar é ser possuído.

Parto, pois só no parto um novo mundo nasce.

Parto para saber o que de mim ainda resta.

Quero renovar minhas penas nas alturas dos montes,

Ali onde a solitude é o único meio de desvendar-me.

Ir embora é condição de quem partido, precisa partir. 

domingo, 19 de setembro de 2010

Tudo Pelo Teu Olhar




O buraco no telhado estava ali à lembrança;
Quatro mãos destinaram o corpo dependurando-o entre o céu e a terra.
A face do Cristo acedeu à entrega de uma vida que se fez oferta na sala,
E o meu tímido olhar celebrou ao vê-lO ali na homilia.

O buraco no telhado continuava ali e os amigos viam através dele.
Um misto de alegria, poeira e luz entremeava olhares aturdidos,
A voz do Mestre pronunciou-me a cura: “Levanta e anda!”.
Porém antes, os meus pecados foram perdoados e eu fiquei limpo.

O buraco que havia em minha alma não se comparava ao do telhado.
A fenda exterior permitiu-me cingir a rotura da veste interior.
Ele foi gracioso comigo, mandou-me tomar o meu leito de volta para casa.
Para onde eu iria se o meu anelo estava ali, ante os meus olhos?

Cingido, decidi não cindir mais com a vida.
Fiz-me forte, olhei-o nos olhos e vi-me.
De pé, caminhei seguro,
Dei meus primeiros passos sem temer o futuro, nem à vida nem o mundo.

O buraco do telhado ainda continua ali, aberto para que outros desçam,
Caso tenham coragem de lançar-se no abismo e olhá-lO nos olhos.
Caso desejem mais do que simplesmente andar sobre os seus próprios pés,
Ele estará sempre lá, para pessoas que anelam como eu fitar a ternura do seu olhar.

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Basta Tua Graça




A fenda em mim continua aberta,


Se sul, se norte,


Se leste ou oeste, não sei.


Só sei que para onde quer que eu vá haverá luz.


Bifurcações existem nos caminhos,


Cabe a quem caminha saber para onde vai.


Se eu sei?


Que importa, se o segredo mesmo é fazer o caminho caminhando?


A fenda em mim continua aberta,


Para que eu me lembre que onde quer que for 

É de Ti que eu dependo e que minha alma tem sede.


A fenda em mim continua aberta,


Doce possibilidade da Tua intervenção.


É bom saber que entre a poeira da estrada e o olhar,


A Tua graça me basta Senhor.

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Hibernação




O profeta disse: “Ouvirão o canto das aves nas janelas”.
Daqui do meu lugar escuto os pássaros.
Desses, citadinos que, como eu,
Transitam desesperados à procura de um espaço-vida.

Não sei nomear as aves que gorjeiam por aqui, além do bem-te-vi,
Mas sei apreciar suas canções, melodias de sons afáveis.
Nesta terra onde habito até as aves buscam refúgio, enquanto cantam,
E eu, cantando, vou acolhendo-me às tardezinhas de outono.

Como me pareço com as aves?
É simples saber, a melodia em nós é gemido na espera e no desejo.
E da janela ouve-se a voz que cantando se faz alívio.
As aves voam enquanto voa a minha alma sonhadora.

Cavernas não possuem janelas.
São poucas as aves que celebram no inverno polar.
Para alguns seres o inverno sempre vem mais cedo.
E como um urso, eu hiberno, enquanto devoro a gordura de mim mesmo.

Essa autofagia é salutar para quem se nutriu no verão.
Daqui do lugar que é meu, sinto a lucidez que tece a mudança.
Mudo, mudo-me enquanto muda o mundo ao meu redor.
Faço do silêncio a minha melodia mais suave.

Sofonias, o profeta tinha razão,
Que há de mais belo que as aves cantando na janela?
O silêncio em mim me permite ouvir a sinfonia da minha própria espera.
Eu espero o sol que logo mudará o gelo de agora em rios de águas correntes.