quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Do Que É Feito O Amor?



A aranha tece o fio da teia que constrói seu sonho no v de um vão.
Lá fora, a lua inerme faz o espelho d’água pratear o lago.
A noite veste de escuridão a vida outrora verde, antes do azul partir.
Grilos pulam e encantam enquanto cantam à luz de vaga-lumes ébrios.

Se o sol não vem, de uma espessa sombra surge o opaco manto que reluz estrelas.
Os sapos coaxam sob a brisa suave que prateia a lua que pranteia o sol.
Lá fora em algum lugar a minha alma habita outras almas.
Porque em mim habitam mundos e constelações de almas iridescentes.

Visto o meu ser com a noite quando choro a aurora que não veio.
Minha estrela-cadente mergulha veloz a alma infinda do universo de amores findos.
Seca-se a roupa no varal, mas não sossega a dor de pés que trafegam labirintos de espelhos.
Sinto-me cometa que acomete espaços siderais de pensamentos cálidos.

A cigarra canta sozinha no caule do umbuzeiro.
O que canta a cigarra que não canta minha alma à sombra de uma flor?
Canto o canto da esperança no canto contida por mimetismos serenos.
Do que tem medo a minha alma? Ela teme ser esquecida. O ostracismo meu senhor!

Do que é feita a alma? Será de sonhos?
Do que é feito o mundo? Será de ilusões?
Não sei dizer. Só sei que se o sol se for morre em mim a luz.
A alma e o mundo se completam, são meras distrações.

A aranha continua ai no mundo tecendo espaços.
O sol dá o seu giro e eclode em luz que ilumina o lago outrora prateado.
A cigarra ainda canta e o vento no varal faz coaxar batráquios.
Quanto a mim, como os outros, sorvo o mundo e na alma vivo sonhos e ilusões.

Seria isso a escuridão que veste a noite quando o sol não vem?
Não sei do que é feita a noite,
Mas sei do que é feito o amor que doura a vida.
O amor meu senhor, é feito de centelhas da eternidade.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Comedores de Carcaças



Desde pequeno que a flora e a fauna me encantam.
Entretanto, há nelas certos seres que não me enchem os olhos. 
Eu gosto muito dos beija-flores, mas não muito dos morcegos.
Gosto das flores e detesto as macegas.
Gosto dos esquilos, mas não sou fã dos ratos.

Eu não gosto das hienas.
Sou obrigado a respeitar seu território.
As selvagens nunca me fizeram mal algum para que as rejeite.
No entanto, repugno as citadinas, aquelas que devoram as vísceras de presas indefesas.
Prefiro leões, tigres e crocodilos à hienas risonhas.


As hienas são feitas de feiúra, mau cheiro e andar manquejante.
No reino animal elas não gozam de boa reputação,
E menos ainda para mim porque são plasmadas por seres humanos.
Mesmo assim, tenho encontrado várias nesse mundo de meu Deus.
Elas estão disfarçadas com colarinhos brancos, ternos, gravatas e cromo-alemães na selva que fazem da vida.


Quero definir as hienas embora não aprecie fazê-lo.
Tais criaturas pertencem à família Hyaenidae, de ordem carnívora.
São de uma ligeira semelhança com a raça canídea (os cães).
Porém, diferente desta, possuem uma assimetria ridícula e fantasmagórica.
Elas são cabeçudas, acho que por isso não são velozes.


No entanto, são resistentes e podem perseguir sua presa por quilômetros a fio.
Essa raça de bicho não vive isolada nem solitária, gosta de aproximação.
As hienas são gregárias. São notívagas.
Gostam das sombras e de coisas sombrias.
Entretanto, ilude-se, porém, quem pensa que elas só agem quando o sol se põe.
Estão sempre ativas durante o dia.


Não há tempo ruim para esses seres que se riem de tudo.
As hienas são de hábitos incomuns entre os mamíferos.
Suas sociedades são governadas pelas fêmeas.
Eu pensava que isto deveria torná-las mais dóceis.
Contudo, seus hormônios masculinos elevam sua agressividade.

Meu caro leitor sabe quanto dura a gestação de sua majestade, dona hiena?
Quatro meses! Isso mesmo, quatro meses em duas crias por ano.
Que bom que a natureza não permite a sua ampla proliferação.
Tem sorte de sua "beleza" não facultar sua extinção. 
o fato é que hienas existem ai onde os leões existem.
Elas são uma espécie de sombra maligna nos passos dos felinos.

Para onde vão os leões, estas seguem suas pegadas.
Os leões são seres livres. Caçadores de presas vivas.
Todavia, ao caçá-las, comem-nas dominadas e mortas. 
Não possuem traços sádicos como suas rivais.
As hienas sobrevivem de carcaças e de cadáveres.
Não obstante, quando raramente caçam,
Preferem suas presas ainda vivas; devoram-nas a sangue frio.


Os leões são exímios caçadores.
Hienas sobrevivem e contentam-se com sobras. 
Vivem de restos de leões.
Mas, é à sombra dos mesmos que estas respiram.
Elas não sabem sua existência longe do espaço das ossadas. 
Comem migalhas de farras leoninas.


Eu fico imaginando que estas bestas ruins são urubus na alma.
Abutres em corpo de hienas.
Só não voam e tampouco possuem bicos,
Mas saboreiam a carniça deixada para trás por leões fartos.
Hienas não perseguem suas presas, seus sonhos culinários.
Vivem farejando pegadas da realeza da selva.


Elas não se sabem fracas. 
Elas são inescrupulosamente covardes e amam o fisiologismo.
São frias e calculistas. É fácil identificá-las assim que se avista uma.
Há hienas na política, nas repartições públicas e nos templos por toda parte.
Como eu já disse: estão em volta dos mais fortes puxando pedaços da vítima para si.

Como certos homens, as hienas são mamíferos de poucos afetos.
Hienas não amam. São egocêntricas. Em geral são frouxas.
Quase tudo numa hiena é indefinido como indefinido é um traidor.
Hienas vivem às escondidas. Entre escórias.
Caminham na calada da noite e cochicham coisas perigosas na escuridão.

Sua cor tem um tom marrom-escuro, nem é um nem é outro.
Seu sexo é confuso como sua natureza mordaz.
O clitóris da fêmea é semelhante ao pênis do macho. 
Acho que por causa disto foram tidas como hermafroditas por longos anos.
Entre os leões não há isto, leão é leão e leoa é leoa como manda o figurino.

Os leões defendem a sua prole.
As hienas nascem com os olhos abertos e seus dentes inteiramente afiados,
Cortantes feito navalhas no abate.
Ao nascerem, duas fêmeas se devoram.
Uma não resiste a idéia da existência da outra.
Lutam até que só reste uma, a mais forte.


Hienas trazem do berço sua asquerosa maldade.
Estas não suportam a concorrência limpa e honesta, tampouco a transparência.
Diferentes dos leões, não sabem viver sem uma risadinha de canto de boca.
Hienas sabem caçar bem verdade, mas preferem o lucro fácil.

Como os demais bichos, hienas precisam do divã. Quem sabe o de um pet shop.  
estas se recusam, pois não conseguem ver feiúras em si mesmas: narcisismo de  hienas.
Vivem de imagens (falso self) por identificação-projetivas, 
Advindas do objeto imaginário do desejo: leões idealizados.
Em tese, as hienas temem deparar-se com sua dor mais profunda na foraclusão.

Tudo que uma hiena deseja, no fundo, é a atenção materna.
desse modo, ocorre-me alguns lampejos de uma possível "psicanálise canina".
E assim, parodio o poeta: "um líder-hiena acha feio o que não é espelho".
Hienas preferem uma vida fora de riscos, além de desejarem parecer tão belas como as leoas.
Mas, isto é, nelas é uma necessidade instintual, e, portanto, inconsciente.
Se as hienas soubessem notariam que o estômago não é tudo, tampouco as imagens, mas elas não sabem.

Tenho notado que alguns leões não se importam em serem seguidos por hienas.
O fato é que, na verdade, elas existem para limpar o trabalho sujo dos leões complacentes - seu alterego.
Certos leões não toleram hienas.
Os verdadeiros leões não gostam de presas fáceis nem de restos mortais - cadáveres da cadeia alimentar.
A vida me fez notar certos leões se parecem à hienas; acho que pelo convívio.

Tipo, “diga-me com quem tu andas que eu te direi quem tu és”.
Leões só se parecem com hienas apenas quando domados nos circos da vida.
Como teólogo, eu aprendi que há LEÕES e leões.
O diabo, por exemplo, é domador de leões que tenta transformá-los em hienas.
O engraçado é que este imbecil que é hiena vestida de leão, quer converter leões em hienas.

Transportando a diabolicidade, própria da sua natureza, para as suas domesticações - suas crias.
Por serem covardes, as hienas vivem em clãs de até quarenta predadores. 
Não sei qual a razão disso me fazer lembrar o Alibabá.  
Hienas não caçam, nem andam sozinhas. Quando o fazem, imitam os lobos:
São sutis, espreitam, observam e raramente atacam em emboscada.

O “cão”, o “coisa ruim” sofre de hienice aguda é um tipo de surto psicótico que o faz pensar ser leonino.
Anda como um leão.
Pula como um leão. 
Ruge como um leão, mas é hiena.
É fácil escutar seus risos quando se esgueira sobre leões fartos ou vencidos.
De fato, este não pode ser leão, pois é hiena na essência e ante o espelho.

Sabe qual a obsessão dessa Hiena? Ser como o Grande Leão um dia.
O sonho de toda hiena é ser leão um dia.
Sem chance! Isso não é possível, pois em certos territórios há um só Leão.
E em certas tribos não cabem mais de um totem.
Tentaram domar um Leão há dois mil anos atrás, mas não foi possível.

Ele preferiu a morte que tornar-se objeto lúdico de picadeiro dos poderosos.
Ele não venceu as hienas pelo parecer ser, mas o fez por ser essencialmente o que era: Leão.
Tornou-se presa de hienas, pois há leões que morrem quando atacados por bandos de hienas.
Diga-se de passagem, foi o filho de uma hiena que O traiu.
As hienas também têm crias. E estas ainda vivem por ai à soltas.

Certos leões matam hienas e não misturam sua ninhada.  
Onde houver um leão domado, ali haverá a negação da natureza leonina plena.
Os circos existem para leões que se esquecem de si e de sua natureza felina.
Às vezes o Estado é um circo,
O sistema político-econômico é um picadeiro onde leões domados brincam de selvageria.

Empresas, templos e sistemas religiosos às vezes possuem dimensões circenses.
São clausuras de leões domados que deixam de viver o que nasceram para ser: livres.
Leões livres são leões que caçam.
Leões não roubam presas, hienas sim, leões perseguem seus sonhos.
Há líderes que são hienas e líderes que são leoninos.

Hienas possuem estômagos monstruosos, comem de tudo.
Quando os leões não deixam restos Incluem no cardápio as suas próprias fezes.
Sua degustação é surreal.
Os leopardos possuem a melhor e mais sofisticada tática de caça,
O guepardo é o mais veloz,

Os leões atacam em grupo,
Os tigres abatem as presas maiores,
A onça pintada oferece a dentada mais violenta.
Porém, as hienas são horripilantes, covardes e preguiçosas.
Há pelo menos cinco categorias de alvos de uma hiena,

Os espécimes mais jovens, porque sabem pouco da vida e de defesas;
Os velhos, porque já estão esgotados;
Os doentes, porque estão feridos,
Os moribundos, porque já estão derrotados e, finalmente,
Os mortos, onde revelam sua natureza abutre e se deleitam às escondidas.

Mas, comumente hesitam em atacar animais fortes e sadios.
Ainda me perguntam por que odeio a hiena nas pessoas?
Hienas são carniceiras, facínoras e dissimuladas.
Elas possuem fissuras no caráter.
Líderes, chefes e patrões hienas são oportunistas, roubam a caça abatida por outros predadores.

Suas mandíbulas andam afiadas para extorquir o direito dos outros.
Chegam a devorar até os ossos, pois seu ácido estomacal permite.
Líderes hienas são maquiavélicos.
Esfacelam a carne de seus liderados enquanto riem.
Nem sempre o riso é sinônimo de bem-querência.

Há que se interpretar o riso. Hienas riem sem amar.
A sorte das hienas é que minha rejeição não interfere na continuidade da espécie.
Quero deixar uma mensagem para os desavisados que passam por este caminho,
E um lembre aos que já conhecem a estrada:

CUIDADO! HIENAS À ESPREITA.


quinta-feira, 11 de novembro de 2010

A Verdadeira Amizade

 


Não sei como começar a escrever este poema,

Sei como sentir o que fomenta sua existência.

Sou um homem de poucos amigos,

Mas quando os tenho, sou amigo de verdade.

Certo dicionarista define amizade como sendo,

Um “afeto que liga as pessoas”.

Se isto for verdade eu tenho menos amigos do que eu mesmo imaginava.

Se a palavra afeto significar carinho, logo meu grupo de amigos fica menor ainda.

Carinho é um sentimento que as pessoas possuem quando desejam o bem do outro.

O bem não pode ser restrito apenas a um sentimento,

Na amizade o bem se transforma em prática.

Prática é uma espécie de ação movida por atitudes movidas pelos sentimentos.



Sendo assim, ao julgar as ações dos que se diziam meus amigos,

Eu descobri que andava ladeado de inimigos e não sabia.

Judas beijou a face de Jesus e deu-lhe afeto.

Expressou-lhe carinho numa atitude prática que parecia querer-lhe o bem.

Jesus o chamou de amigo.

Mas amigo de quem Judas era?

Ou Jesus falava de si mesmo, de seu sentimento por ele,

Ou ignorava o que o TRAIDOR fazia às escondidas.

Ou ainda, Jesus insistia em não apagar a imagem do começo.

Os Judas existem porque os amigos existem.

Os Judas existem porque são como erva daninha: 


Se multiplicam, crescem rápido, são plurais e você os encontra em qualquer esquina. 


Em tese os Judas não são amigos, são especialistas em beijos na face.

Os Judas Modernos beijam, pois beijos são afetos dados na intimidade,

Os Judas são falsos amigos, estão ao lado, mas não do mesmo lado.

Carregam a bolsa e até discursam sobre nardo derramado de vasos de alabastros.

Eles possuem aparência de generosidade quanto aos pobres. 


Pobre de quem acredita! Eles são o fim em e de si mesmos.

São aplaudidos, sorriem constantemente, mas instilam veneno.  


São como a Hidra em seus relacionamentos. 


De faces não entendem só porque beijam, mas porque possuem várias.
  


No fundo eles só querem o bem de si mesmos,

Não se importam se o amigo será crucificado ou morto.

Os Judas são fissurados por PODER, DINHEIRO e GLÓRIA.

Insulflam conflitos, agem por fisiologismo, adoram elogios e tapinhas nas costas. 


Lull tinha razão, são velhas raposas disfarçadas no galinheiro, lobos entre cordeiros.

O que devo pensar da amizade?

Um amigo se doa, dá sua vida, é cúmplice.

Um amigo é justo, corrige em amor, não escamoteia.

Um amigo reparte as poucas moedas que possui, acolhe.

Chora junto, levanta o outro na fraqueza.

Diz a verdade, olha nos olhos, confronta e mostra o caminho.

Não se vende, nem vende o outro, nem dissimula.

Dizem as Escrituras: “Mais vale um amigo próximo que um irmão longe”.

E ainda: "Há amigos mais chegados que irmãos".




Os Judas possuem uma característica comum,

Todos são DIABOS. Foi assim que Jesus os definiu.

E por natureza o Diabo é um gênio do mal, enganador e sub-reptício.

Os Judas parecem ser tão próximos que Jesus disse: “O traidor é o que mete a mão comigo no prato”.

Não sei definir a amizade, só sei ser amigo.

Os meus inimigos sabem que têm em mim um amigo.

Um amigo, eu imagino, não deixa o outro entre abismos.

Um amigo se importa, cuida de tudo o que é o outro.

Ama a família, não o abandona e sequer faz-de-conta.

Um amigo não fala mal, põe-se como escudeiro. 


Não encobre os erros, mas protege do perigo e aplica a justiça em amor.




Não haveria a cruz do nazareno caso não houvesse o Judas: o traidor.

Não haveria o Judas caso não houvesse as trinta peças de prata.

Não haveria suborno caso não houvesse os sacerdotes.

Não sei porque os sacerdotes estão sempre ligados a comprar e vender alguém ou coisas.    


Deve ser pelo fato de estarem relacionados com ofertas e sacrifícios queimados: holocaustos.  


Não haveria o beijo na face caso o traidor não se vestisse de irmão numa amizade velada.

O fato é que Jesus não ressuscita para Judas, mas morre por causa dele.

Os Judas terminam sempre enforcados em ACELDAMA: campo de sangue.

Os campos comprados por suas famigeradas moedas são os mesmos que os sepultam.

Os amigos vivem para sempre, porque a amizade vale a pena.

Eles ressuscitam e seguem para a Galiléia, ao lugar do reencontro.

Dificilmente queremos reencontrar a quem vendeu o seu lugar entre os doze.

Porquanto amigos não se vendem nem por pratos de lentilhas.



Sabe mesmo como defino amizade? Como o Galileu a definiu:

“Eu já não vos chamo mais de servos, porque os servos não sabem o que faz o seu

Senhor; chamei-vos amigos, porque tudo quanto ouvi do meu pai vos dei a conhecer”.

Na verdadeira amizade segredos não são instrumentos de morte,

Não há escravidão nem se vive do sangue do outro, visto que amigos não são vampiros.


O saber sobre o outro não é um cadafalso para a morte,

Entre amigos, segredos são caminhos para justiça e paz.
 


Caro leitor já que conseguiste chegar até aqui neste poema,

Tenha cuidado de si mesmo. Seja amigo de si mesmo.

Canja de galinha e um pouco mais de reservas nas suas amizades não faz mal aos olhos.

A verdadeira amizade? Existe, bem ali onde os Judas existem.

Onde os Cristos ainda são beijados nos jardins junto à serpente.


Eles precisam existir, pois de que outra forma conheceríamos pessoas peçonhentas? 



Lembre-se, há sempre alguém neste mundo por quem se valha a pena viver.

Não há só Judas entre os doze. Os Judas não duram para sempre.

Eles dão lugar aos Matias (homem de Deus) da vida.

Os Judas depois de matar o amigo – objeto de seu ódio inconsciente ou não,

Suicidam-se, visto que não suportam a dor imposta amigo pelo silêncio do amigo.

A natureza não dá saltos. Vigora-se nela a lei do retorno.


Até a sociedade celebra os Judas de forma clássica:

Pendura-lhe na forca e depois de bater-lhe muito, queima-o.



Todos nós sabemos que os Judas têm vida breve.

Ninguém os fere, eles mesmos causam o seu próprio óbito.

Depois de contar nos dedos, escolha alguém para amar,

A despeito do mal que possa causar-te.

A amizade é uma necessidade dos homens.

Tenha amigos e não descuide, seja amigo de verdade para alguém.  

A amizade é pão que se come acompanhado do chá de tília em invernos frios.

A amizade é perfume que exala o amor quando a primavera viceja nas montanhas.

É bálsamo que umedece a pele sarando feridas abertas dando-lhe refrigério.

É canção de amor entoada no entardecer.

É finalmente, um lugar onde a gente não precisa das máscaras. 


A amizade é um lugar onde se pode amar.

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

A Verdade Vos Libertará.




A verdade é assim,

Menina faceira que se esconde do olhar.

Sabe surgir como o sol nas trevas do mundo, entre os homens.

Eu aprendi a conviver com ela,

Ninguém a domina,

Ninguém a conhece de verdade.


É flor tenra que nasce e viceja ao orvalho do campo,


Eclode em silêncio,


Grita,


Suicida-se, mas não escamoteia. 


Meia verdade é mentira escancarada e escandalosa.


A inverdade é fruto esquálido, engano travestido de luz.


A verdade é transparente e brilha como o ouro.
  
Eu temo mais a verdade escondida que a sujeira exposta.

Quando a verdade está posta debaixo do tapete a injustiça impera sobre alguém,

E normalmente, esgarça a vida de quem está do lado fraco da corda.

Como o sol ela sempre brilha no tempo,

Como a chuva ela rega a terra dos necessitados,

Como a lua ela ilumina a estrada dos que andam na escuridão.

A verdade meu senhor é como tesouro encontrado nas montanhas,

Nem todo olho a percebe,

Nem toda mão toca-a,

Nem todo coração a vê.

A verdade é como um trem que chega na hora exata,

É como a estação apropriada,

Se roubada, sofre alguém,

Se desprezada, a injustiça governa.

Ela não é propriedade de ninguém,

Mas pertence à todos que buscam uma vida de excelência.

Não pertence à políticos, 

Muito menos à religiosos.

A verdade é livre.

Se escondida, o mal impera.

Se suprimida, uma besta nasce em qualquer lugar.

A verdade meu senhor é assim, simplesmente livre.

Ela não tem partido,

Nem grupo social ou cultural,

Nem nos guetos, 


Tampouco está nas pastas de empresários,

Não usa batinas,

Não é domínio de mestres, nem está nos altares feitos por mãos humanas.

A verdade não usa black tie,

Nem veste prado,

Ela vive por ai onde quer que encontre amor a alguma causa.

Ela submerge com o tempo,

Transcende a história, mas nela se manifesta,

A verdade não está togada,


Nem sempre presta continência,

Tampouco fala manso ou está em sorrisos vitoriosos.

Sua lucidez estampa a inocência ou a maldade de alguém.

Eu temo a mentira quando se disfarça de verdade.

Eu temo os olhos de quem engravida pelo ouvido.
   
Eu temo os ouvidos dos que não sabem ver.

Eu temo o mundo e o fundo de uma alma sem verdade.

É escuridão demais para transpor, quem o saberá discernir?

Com o tempo eu descobri que há muitas verdades na verdade.

Há verdades que parem verdades.

Há verdade sob camadas de mentiras expostas.

Odeio a verdade negada.

O direito calado.

O fato é que nem sempre o que é verdadeiro é o que está à vista.

Às vezes os olhos se deixam iludir com a aparência dos mais fortes.

“É que Narciso acha feio o que não é espelho”, disse o poeta.

No fim, a verdade acaba sendo aquilo que a gente quer acreditar.

Mera subjetividade visto que a objetividade das coisas está velada.

A verdade? Onde andará? Rarefez-se.


Às vezes a verdade está presa, enquanto a mentira possui as chaves do cárcere.


Outras vezes ela tem peso de morte, quem a suportará?  


O que é aparente parece ter o poder de burlar o essencial, 


Consolo-me com aquele que disse: “O homem vê a aparência, mas eu vejo o coração”. 

Assim, eu repouso na Verdade que Ele é, visto que busca a essência das coisas.


E conhecereis a verdade e ela desnudará o mundo.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Desertos Meus




Hoje me sinto um mar, como quando as ondas quebram na praia,

Na areia.

A brisa leve soprando traz um som que vem do infinito e me cativa a alma.

Na areia,

A minha pele se alimenta da palavra contida e o silêncio é apenas um desejo no fundo do meu ser,

Na areia.

Penso, logo existo, enquanto insisto em ver-me verme que renasce ao lume.

Na areia,

A melodia que ouço em mim agora é da mesma sinfonia que na primavera me tranzia o corpo.

Na areia,

O amor que ainda em mim habita é canção que se tocada faz chorar o poeta,

Na areia.

Faz sorrir o palhaço que do picadeiro despediu-se em lágrimas,

Na areia.

O amor em mim meu senhor, é pão comido junto ao fogão à lenha em manhãs de invernos.

Na areia.

É arco-íris. Furta a rosa furta-cor de cores vívidas postas em lençóis de sonhos,

Na areia.

A areia meu senhor, mareia os olhos de quem o mundo viu da janela da esperança.

É assim que me sinto hoje, um cântaro junto à fonte,

Como mãos que malham o trigo no lagar.

Lugar onde o tempo pára e o rouxinol se aventura ao seu canto solitário.

Na areia, 

Tudo é areia.

O mundo é areia,

O mar é areia,


Eu sou deserto de areia e flores,


eternas dunas que abundam em mim e eu nauseabundo caminho,


Na areia.

Um deserto falciforme desfaz-se na ampulheta do tempo.   

Na areia,

Mera distração para mim que me sei pó no mormaço desta vida.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

De Olhos Abertos





Quando criança eu imaginava que sabia ver.


Eu via como todas as crianças do mundo viam: com olhos famintos pelo saber.  


Cresci e descobri que o mundo é melhor visto por olhos que amam.


Saber ver não é apenas uma questão de lançar o olhar sobre o mundo,


Ver é uma predisposição que antecipa e proporciona o conhecer.


O olhar não carece só de objetos, mas também de quem o instrua.


Os olhos só sabem ver o que a alma amando aprende e deseja enxergar.


Educadores são regentes da alma e condutores dos olhos.


Mestres são guias de olhares sedentos, sitientibus. 


Aios de olhares-moleques que desejam aprender apreendendo.


Os olhos são janelas da alma e a alma absorve o mundo visto por dentro. 


Os olhos que sabem ver são olhos repletos de encantamentos. 


Para mim,  educar é uma tarefa de ´condução e indução´ do olhar.


Os professores deveriam saber que além de amar a alma quer ver.


Ver os mundos,


Ver as coisas,


Ver-se,


Ver as pessoas,


Rever,


Reviver.


Ao longo dos anos eu aprendi que educar é a arte de fazer ver.


Ensinar a ver é o papel mais nobre de um educador.


Entre outras coisas eu admiro Jesus, porque sempre foi um educador.


Ele instigava as pessoas à visão de si mesmas, do mundo e da eternidade.


Perto dele os cegos viam,


Mesmo que vissem ´homens como árvores que andam`. 


Ele sempre indagava ao aproximar-se de alguém: que queres que Eu te faça?


Ao que os cegos respondiam: que eu possa ver.


A criança em mim insiste em querer ver.


Mas eu temo que os educadores de olhares estejam rareando.


Educar não é fazer com que o aprendiz veja o que o educador quer ver,


E muito menos fazer com que ele veja como o educador ver. 


Ensinar é antes, compreender o que outro vê, orientar e explicar o que se vê.


Ensinar é instigar a que o outro veja e interprete com maior clareza a coisa vista; 


À luz da subjetividade do ser que enxerga e da objetividade da coisa em si.


Um professor é uma espécie de eyes personal trainer (treinador pessoal dos olhos)


Ou ainda soul pesonal trainer (treinador pessoal da alma).


Os olhos não se fartam de ver, porém se o que se vê não faz sentido,


A cegueira é a verdade que se estabelece.   


Não podemos esconder o sol, de quem deseja banhar-se nos seus raios.


Se educar não for a tarefa de fazer ver perfeitamente a tudo,


Então ensinar será a atividade de quem vive à sombra da escuridão,


À margem da certeza na periferia da lucidez.