domingo, 16 de janeiro de 2011

Trocadilho



Ter-te comigo é como ter a mim tentado ter-me contigo.
Te ti contigo, sibila o poeta altaneiro.
Tece o linho da mortalha,
Coze o véu da noiva numa cachoeira de águas claras.
Me mi comigo, na espera de uma avelã madura.
Torce a cauda enquanto terce a malha fina da navalha na poesia.
Se si consigo, se consigo esvaziar a fonte.
Os nós já foram dados, o que fazer? Desfazer.
Se só sossego sussurrando salsas e sorrisos,
Ter-te comigo me parece ser-te sorte mais feliz.

Cadafalso Para Cada Falso!


A fé é o cadafalso da razão.
Fere a jactância do orgulho.
A porta entreaberta espreita os vícios do espírito.
Soberanos, azorragues ditam a próxima oração.

O devoto se encurva, o bispo alveja-o na Sistina.
O capitalismo habita os lugares outrora sagrados.
Cão sagrado, pão partido, corpos desnutridos ceiam no patíbulo.
E nos altares a prosperidade é moeda de troca.

Pergunto-me, o que fazem os deuses com as dracmas?   
Para que lhes servem as moedas? De que lhe serve o ouro?
Temam a Deus e atentem para a usura dos fiéis soldados de Mamom.
Eles só falam em dinheiro e prometem latifúndios na terra da promessa.

“Não ajunteis tesouro na terra”, disse o Cristo.
Mas esta mensagem é para os leigos apenas, dizem.
O clero finge estar autorizado a possuir aqui o que já foi desautorizado lá.
Raça de víboras; devora a carne dos pobres e fingem devoção.

A justiça é o cadafalso dos avaros.
Genuíno é o evangelho. Sofre o dano.
Tudo espera; tudo suporta e diz a verdade.
Reconstrói, perdoa e santifica.

Não há nada errado em abençoar, repartir ou dar.
Se o que dou visa os pobres, as viúvas e os órfãos.
Se o que dou é um meio de locupletar a gana Judas avarentos,
Logo, corroboro para que o mal finque raízes.

Hoje já não dá mais para fazer o bem sem olhar onde e à quem.
Ofertar não pode ser um ato cego de cegos que engordam caolhos.
A oferta é um ato de amor, consciente e com desígnios comunitários.
O que passar disso é alimentar utopias de aventureiros de terno e gravatas.

O que levava a bolsa era um dos doze.
O que roubava a bolsa dos doze era um.
Eram doze, mas um era ladrão.
Eram doze, mas um, o ladrão, não suportava ungüentos vertidos perfumando o Cristo.
   
“Desperdício”, dizia ele, de olho na bolsa.
Por que não se deu aos pobres? Um fingidor.
Ladrão! Os pobres estarão sempre entre vós.
Seu evangelho era o do lucro fácil.

O cadafalso da mentira é a verdade.
Os fiéis estão mais pobres e os anunciadores de prosperidade mais ricos.
Por onde anda o evangelho da graça? Está em desuso.
Não serve, é de graça demais para quem quer tudo pago.

Venda o seu carro, fique a pé.
Doe a sua casa, entregue tudo.
Latifúndio é coisa do demo.
E no fundo, refiro-me aos bastidores, os porcos chafurdam.

O evangelho foi posto a venda no varejo e no atacado, barateado.
Comprem o óleo, a fogueira, a arca e o ramalhete.
Passe pela porta; banhe-se no sal grosso; seja tolo.
E por ai a Bíblia esconde dólares de sacerdotes em fuga.

Quem dá mais? Pergunta o bandido.
“E farão de vós negócio”, disse Pedro o Apóstolo.
Quem dá mais? Indagam os cambistas no interior dos templos.
Balaão é pastor na igreja dos Nicolaítas.

O cadafalso do oprimido é a ignorância.
O evangelho é luz, mas não precisa comprar lanternas na igreja.
É cruz, mas não precisa pagar por pedaços de madeira de Israel.
O evangelho é espírito e vida e não um mercado livre que alicia o comércio.

Thomas More tinha razão, “pregadores hábeis e sinuosos (...)
Torceram e vergaram o Evangelho, como se fora uma régua de chumbo,
E moldaram-no aos costumes dos homens (...)
Desse modo, dão “(...) segurança e estabilidade ao próprio mal”.  


segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

À Luz Das Estrelas



É noite e o dia demora de chegar.
As estrelas estão ali cintilantes à um toque das mãos.
Quando criança eu sonhava contá-las todas,
Mas logo perdia-me encantado pelas cadentes.


O olhar cadente sofria da incapacidade de possuí-las.
A alma é assim, sempre rejeita o que não sabe possuir.
O que haverá depois da Lua? Que segredos ela esconde?
Não sei dizer, só sei que o meu olhar fagulha à luz que esconde a face de menino.


Eu sempre quis saber o que são os buracos-negros, sempre pensei que eles engoliam as estrelas.
Assim, eu indagava-me: de que serve um céu sem estrelas ou uma noite sem luar?
Mas, para que desvendar tal fenômeno se a alma já o conhece?
A alma meu senhor é feita de centelhas de estrelas cadentes, ela sobrevive do amanhecer de estrelas D´alva.
    
Gosto do céu quando os meus pés estão absortos,
Prefiro o azul-marinho de céus de noites silenciosas.
Amo a palavra dita à luz de pirilampos,
Ai onde viceja a vida sem culpa, sem pressa e sem medo.


Amo a fogueira acesa ao pé de corações floridos.
Como quando fagulhas de instantes eternos povoam os céus entre faces sorridentes.
Anelo a fina flor da chuva de respingos sobre as brasas que assam o pão da alegria,
Sim, eu amo o amor entre a fumaça e um dedinho de prosa de velhos marinheiros.


Minha alma é brejeira e quer a felicidade à luz da lua.
Quero a palhoça, o milho, o amendoim e o feijão macassa.
Quero comer peixe com as mãos e beber o vinho da alegria.
Quero qualquer coisa que se chamar amor e bondade à luz das estrelas.  

sábado, 8 de janeiro de 2011

Sei Lá!


Hoje eu não quero a palavra.
Eu quero o silêncio,
Não quero a angústia velada na dor da incerteza.

Hoje eu só quero o olhar que acolhe,
Quando os pés tropeçam nas pedras da estrada.
Hoje a inexistência seria o melhor presente dos deuses.

A invisibilidade um prêmio.
Um suvenir vendido nos becos de terras longíquas.
Quero a demora das horas, o atraso do trem.
Hoje eu apenas queria banhar os pés nas águas do mar,
Com a face para o Sol.
Um pequeno sol de sóis de fins de tardes.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

UM CORAÇÃO NA AMPULHETA


Os meus olhos marejam na areia do deserto,
certo ar de saudade me faz adejar no tempo. 
Silente, a minha alma anela os ventos do sul,
Onde o amor ancora sua nau que vem de longe.
A poeira me faz respirar ofegante,
A cor do deserto me enternece a alma, 
Um por-de-sol dos sois de amores idos,
Faz calar em mim a saudade que
seu perfume traz,
sou habitante do deserto.
Arde em mim o anelo de ver-te verde de amor maduro.
E assim, uma ventania leve anuncia o beijo 
que minha face sentiu da tua boca doce como o mel.
Sim, não sou eu quem habita o deserto, 
É o deserto que me habita e transformou minha alma em areia presa à sua ampulheta.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Sou Hipertenso!

Faz um tempo que sou hipertenso.
Qual a vantagem disso? Nenhuma.
Nós hipertensos somos hipersensíveis,
Sentimos a vida e passamos o mundo à flor da pele.
Pele que pela natureza ansiosa, expele os pólos pelos poros.

Hoje ela esteve a 15x10, alto risco para quem deseja esquiar nas montanhas.
Não precisamos de aventuras para por a vida em risco,
Transportamos a aventura no sangue e sob risco constante vivemos.
O fato é que amamos o que fazemos e nos sabemos nos limites.
Nas fronteiras dos sonhos e da realidade.

O coração parece cansado do que sabe não-saber.
As coronárias divagam entre a dor e a alegria.
Pulsa o corpo enquanto a alma palpita solitária.
A mente pressionada pelo tempo ocupa o corpo de sofrimentos.
E para o corpo basta a dor e o mundo torna-se demoníaco.

Se eu pudesse eu me daria descanso das ânsias da minha alma.
Eu colocá-la-ia num SPA almático caso existisse.
Se me fosse conferido descansar o espírito eu daria férias ao corpo.
Bem que os religiosos poderiam inventar alguma coisa dessa natureza.
Mas coitados, vivem às voltas importunando os espíritos desencorpados.

A religião é para o corpo o que a borboleta é para o mar.
A morte se avizinha de todos; o que a torna democrática.
Eu gosto do caráter não-preconceituoso dela,
Pois, para ela não há credo, cor, etnia, linguagem, classe ou idade.
Seu caráter universal transforma-a num bem-comum, na religião de todos.

Sou hipertenso, e daí?
Vou tocando à vida à anlodipino, dietas e exercício físico.
É a melhor forma de adiar a morte, lugar certo para todo homem.
A pressão sanguínea anuncia ao corpo a quietude.
O corpo vindo de velhos combates combale claudicante ante a roca do tempo.

Sou hipertenso; dizem que não tem cura.
Teme a morte quem teme a vida.
Tem mais sorte quem tem mais alegria.
Da alegria vem a paz que o corpo precisa.
Por onde andará a alegria? Quem sabe numa sobrevida!

sábado, 1 de janeiro de 2011

Travessia


Hoje é primeiro de janeiro, o primeiro dia do ano.
Dificilmente acontece num sábado; um Shabat completo.
A mesa ainda repleta da culinária da sexta e a alma adejando.
Esse parece ser o nosso mês de Abibe, um Pessach perfeito.
Nos umbrais da porta a marca do sangue, o selo da Aliança.

Um Cordeiro foi morto, nossa Páscoa.
O fato é que um cordeiro é sempre morto na dor de alguém.
Ervas amargas, sabor da aflição de ontem,
Lombos cingidos, um pouco de dignidade no êxodo.
Pés calçados, sinal de que a estrada é longa,
Cajado na mão, para apoiar as pernas cansadas de esperar.

Sinto que minha alma quer sair do exílio,
Mas o mar ainda está vermelho,
E os caminhos se abrem em silêncio longe do olhar.
O anjo da morte passa por cima, salta,
Pura graça de um Deus que sabe amar os que crêem.
Onde há graça, primogênitos não morrem, nem mães são partidas na alma.

Um grito se ouve no Egito, é a dor dos sem a Marca na porta.
Marquei meus umbrais com o sangue,
Sigo, rumo ao novo mundo do outro lado do mar.
Um Sinai me espera e livre espero a Canaã.
Quero deixar para trás a glória do Nilo para tirar água da rocha.

O Deus da liberdade é possuidor do Sol,
É nômade, convida ao deserto e nele faz Sua morada.
Minha alma é nômade e faz do Sol seu lugar abrigo.
Sou poeta da poeira e no pó descanso minha humanidade.
Sou como os beduínos, escondo oásis onde há amor.


Amanhã é domingo, a ressurreição é certa.
A vida que se fez flor floriu no túmulo.
Uma flor eclodiu solitária entre os poderosos,
entretanto, só os pequeninos a perceberam.
A cruz calou-se para dar vez ao cálice e aos lençóis dobrados.
O Cristo, cordeiro de Deus, anuncia a reconciliação.  


Vou seguindo silente a trilha das estrelas,
Não tenho pressa de chegar,
Para onde vou nada é mais instigante que a travessia.
Se Tu estás comigo Senhor, caminhar é o bastante.
Se Te sou anelo, quero ser-Te afeto,
E nós dois, vamos tecendo o fio de prata da vida até fundir-me a Ti.