quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Coisa do Cão!






Certa vez eu estava na cidade Feira de Santana vivendo nela dias áureos, posto que, para mim, sempre a considerei como sendo a minha “Terra da Promessa”. Eu conheço essas terras desde tenra idade e nela cresci ouvindo sobre seus cognomes e sua exuberância, para Ruy Barbosa ela era a “Princesa do Sertão, mesmo estando no agreste; para Pedro Calmon é “Porta Áurea da Bahia". 
Terra de Maria Quitéria que a nomeou como a "Cidade Patriótica", Ovídio de Boaventura batizou-a como a "Cidade Escola"; "Cidade Formosa e Bendita" foi como Georgina Erismann descreveu em sua poesia e finalmente, o Presidente Jânio Quadros deu-lhe como alcunha a "Cidade Progresso". 
Hoje eu acho que esta cidade deve ser chamada de “Planície Adorável”, lugar onde a vida escoa como escoam as águas frescas de ribeiros caudalosos. Nela a minha alma desfruta o peso de uma história de amor e saudade. Dela eu desejo que as minhas filhas cresçam e deixem boas recordações. Feira de Santana é mais que um centro comercial, para mim ela é poesia, é agreste na cor e no tom de sua voz, voz que se faz ouvir no soar do vento e cantar das aves. Aqui eu construí minhas saudades mais doces e finquei as sebes da memória.
Sinto meus pulmões existenciais serem purificados toda vez que, após longas jornadas, retorno para ela e entro pelo portal do sertão. Os meus olhos brilham ao divisar suas lagoas, riachos e fontes nativas. A esta terra eu chamaria de “Pátria Minha”, visto que nela cresceram minha mãe, meus irmãos e eu.
Entretanto, esta terra linda cujo solo contém argila, caulim, areias, arenitos, granulitos e minerais tornou-se palco de uma das mais notáveis situações da minha vida. Dessas que a gente não espera e repentinamente nos surpreendem.
Eu pastoreava na cidade e numa dessas visitas de fim de tarde, a fim de socorrer uma família que estava atravessando uma crise estrutural, eu segui diluindo minhas preocupações em orações e suplicas pela estrada. Ao meu lado vinha como escudeiro um crente. Desses que a gente insiste e teima com a razão em ensinar mesmo sabendo que no coração não há espaço para aprendizado. No entanto, motivado pelo amor eu o convidei para comigo viver mais um episódio de um ministério que floria entre os tabuleiros e planaltos de uma terra que “em se plantando tudo dá”. A terra era boa, alguns homens da terra é que de fato eram agrestes e inférteis.    
O notável irmão parecia um gigante e sua compleição não diferia muito da de um guerreiro pacificado. Eu a mercê da sorte me dava ao luxo de caminhar sem lenço e sem documento. Na verdade eu tentava me livrar de um futuro quadro de apoplexia que parecia querer me sobressaltar, uma vez que não fazia muito tempo eu escapara de coisa semelhante na Inglaterra de onde eu viera.
Eu não podia na verdade tomar sustos grandes, pois meu quadro hipertensivo estava desequilibrado. Tomando todos os cuidados do mundo me fiz orante na terra do sol. A nossa estada naquela casa, no bairro de Quinxangá, pensava eu, deveria ser rápida e objetiva, porquanto eu não andava bem para confrontos ou debates mais arrojados, e, só Deus sabida o que me esperava.
O céu estava limpo. As chuvas de outono-inverno rareavam e o cerrado grassava os campos. A caatinga xenófila possuída de arbustos espinhosos cujas raízes acumulam água e aprofundam-se no chão (o mandacaru, a palma, o xique-xique e outros) acolhe o homem cujo coração agreste, segue em frente rumo ao seu descanso eterno.
O portão estava aberto e num lance de insana simplicidade adentramos para esperarmos a dona da voz que gritava dos fundos – “Estou indo! Aguardem mais um pouquinho”. Aquela casa, eu confesso, aparentemente não representava nenhuma ameaça pelo seu aspecto de casas quando escondem as flores. Todavia eu não perdia por esperar.
De repente, de lá de dentro, sai na nossa direção, um cão com a cara do Cão. Eu saberia descrever a raça, não fosse o desespero que de sobressalto se me deu. Os olhos ficaram turvos, a tensão ficou hiper e minhas veias saltavam no corpo e como um leão para a caçada eu me preparei para correr.
Era um rottweiler. O bandido – refiro-me ao cão – tinha sua origem entre os romanos, e lá fora criado como um cão de guarda e boiadeiro. Este por natureza era acostumado a seguir as legiões romanas entre os Alpes, sua tarefa era guardar os homens e tocar o rebanho. Os rottweiler vieram de uma região chamada de Rottweil. Miscigenado e cheio de ódio contra os invasores, aquele estava apenas defendendo os seus donos bem como o seu patrimônio. Na verdade, era apenas um cão-pastor tendo o cuidado de evitar a exploração do rebanho. Ele estava certo. Tem de tudo nesta vida, o cão do pastor, o cão-pastor, o bom pastor e o pastor do Cão. Tem até, o Cão virado num cão, para atacar pastores em sua missão de amor. 
         Com os pés cravados no chão, sem mover um dedo sequer, eu respirava pelos olhos. O meu companheiro não menos quase-apopléxo do que eu, dotado de táticas de defesas, procurou logo o seu lugar ao sol. Subitamente, este se apropriou de uma pá, dessas gigantes que a gente usa para cavar até ao Japão. Erguendo-a, pulou na minha frente, arqueou os braços e deu um grito que limpou suas vias guturais. Foi cavernoso aquele negócio. 
         Estacado ali, vermelho e disposto a matar o seu inimigo, ameaçava-o com a pá enquanto, aturdido, voraz e sem mais nada pensar, fez o cachorro pensar duas vezes. O massudo cão policial se deparou com um policial de patente mais elevada e zarpou dali como um gatinho fujão.
        Lá dos fundos, a dona da casa, do cão e da voz que gritava, dizia – “Rex, é o Pastor Rex, é o Pastor! Venha cá Rex! Oh meu Deus do céu, é o Pastor Rex!”. Agora, diga-me, por favor, meu caro leitor, Rex sabia lá que veneno é esse negócio de Pastor? Saberia ele distinguir as profissões ou o sacerdócio? Rex nem à igreja ia!
Foi assim que, no dia em que eu fui consolar a uma família em conflito, eu tive que ser socorrido, por conta de que, pálido, já perplexo pelo susto que levei, com medo de ser devorado por um marrento rottweiler, e, pior que isto, com o total receio de o admirável guerreiro dar uma pazada como golpe de misericórdia no Rex e levá-lo a óbito. Ai que seria a tragédia. 
Acolhidos na casa, conselhos dados, pés rumando de volta para o ponto de partida, a alma se fez silêncio na cadência do coração que batia a galope, enquanto a mente pensava os últimos e fatídicos eventos, parti ainda lembrando-me daquela senhora que quase aos prantos, indagava se iríamos de fato matar o seu tão amado cãozinho de estimação.
      Foi assim, que eu aprendi que nesta vida, neste mundo de meu Deus é possível a um pastor perder ovelhas matando um cão. Coisa do Cão!

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Um Pequinês Ateu.


  
Olá meu caro leitor, aqui estou trazendo mais uma narrativa das aventuras de um jovem pastor que seguia a estrada da vida. Desta vez eu estava no bairro de Quixangá, no caminho da Chapada Diamantina, na Bahia.
Terra outrora habitada pelos índios Maracás do grupo dos Tapuias, hoje conhecida no mundo inteiro pelo plantio de viçosos abacaxis. A doçura do lugar evoca-se pela beleza de suas montanhas, pela candura de seu clima temperado nas estações e por um friozinho agradável no inverno.
A Segunda Igreja Batista estava lá, como os abacaxis que brotavam da terra, viçosa e doce. O pastor era meu amigo desde outros invernos e eu junto à sua família gozava de uma tenra amizade. Aquele lugar reunia as razões de eu estar extremamente feliz, eu podia rever velhos amigos, fazer o que mais amo que é pregar o evangelho e desfrutar o clima agradabilíssimo da região.
Das muitas vezes que ali estive nada se comparava ao que viveria ao lado do meu amigo, homem grave, sorridente, dono de um bigode esparramado na face e um olhar tenro e cheio de amor pela igreja. Conquanto estivesse feliz com a minha presença eu nunca o notara tão festivo como naqueles dias, mas havia uma névoa sombria de sutil aspecto como uma suave tristeza em seu semblante. Educado e sensível como sempre fora, pensava mais nos outros do que em si mesmo e seu amor era tão grande que sua ingenuidade o fazia parecer a uma figura dostoieviskiana.
Aguerrido e disposto como sempre fui não me recusei ao convite por ele feito, para irmos visitar uma senhora, membro da sua igreja, de modo que, no horário marcado seguimos para a minha mais hilariante desventura. Seguimos por umas ruas estreitas; era noite e o vento frio assoviava nas esquinas como menino chamando as aves.
Ao descermos do carro numa rua de casebres conjugados paramos à porta esperando que alguém respondesse às palmas que o meu amigo batia a fim de chamar a atenção dos moradores da casa. A luz da sala estava apagada, mas a da cozinha ainda acesa clareava o bastante para o morador da sala, esconder-se do mundo, vendo a tudo e a todos sem ser visto.
Com um sorriso amistoso no rosto um dos habitantes daquela casa nos recebeu gostoso e em seguida fomos levados ao local onde estava a senhora que fomos visitar. Assentada, taciturna, um olhar saindo da escuridão visto que a luz acabara por ser acesa, sua alma cansada dos flagelos da patologia que a fazia arrastar-se por longos anos – elefantíase, esse era o diagnóstico médico – além de feridas, manchas e caroços e bolhas. Eu nunca houvera estado numa situação daquela e sequer orado por um portador de tal mazela.
O pastor meu amigo, tomou a palavra, falou sobre o motivo da visita e reuniu as poucas pessoas em torno da irmã que, pelo que notei já nem se importava se seria unção com óleo, extrema unção imposição de mãos ou espargir de qualquer coisa. Ela queria era a cura, já que tantas vezes se fez orante à espera de um milagre. Depois de meia dúzia de palavras, da leitura de um texto bíblico e da afirmação da fé daquela senhora, o abençoado pastor tomou o vaso de óleo, derramou na minha mão e disse:
– O irmão Robério vai orar pela senhora e vai impor as mãos sobre suas feridas minha cara –, em silêncio, esta assentiu com um olhar e o balançar da cabeça entre expressões de dores e fadiga.
Eu confesso que fiquei pasmo com a situação, mas logo tomei força e fiz como ele havia designado.
O mais complicado para mim não fora orar, antes fora desatar o nós do constrangimento causado por aquele cachorro. Não me entenda tão rapidamente meu caro leitor, refiro-me ao cachorro que estava debaixo do sofá onde a senhora estava assentada.
Desinstalado do seu sossego, este ao ouvir os meus gritos fervorosos na oração dizendo: “enfermidade sai em nome de Jesus. Vai saindo! Saia agora!”. Rosnando partiu para cima de mim. Foi um desassossego.
Eu não sei por que ele ficou tão bravo comigo. Ladrando de forma altissonante, com os dentes postos para fora, esse cachorro acuou-me a mim e ao pastor que já estava longe às léguas, rindo da minha situação. Aquele pequinês infeliz, digo o cachorro, estava zangado e eu deduzo que por algumas possíveis razões: Primeiro, ou não entendia o português, língua que eu falava muito bem, segundo, ele estava estressado porque eu estava reeditando os seus traumas diários naquela casa, terceiro, ou porque para ele, eu não tinha o direito de naquele tom dar-lhe ordens dentro da sua casa e finalmente, porque eu era mais um que ali tentava consolar a sua dona tão amada.
O fato é que a oração foi transformada em corre-corre e eu apressado fugia do meu inimigo saído das sombras. Enquanto isso, o pastor meu amigo ria a valer de mim e da situação na qual eu estava. Entretanto, o que mais me alegrou foi o fato de ter arrancado um sorriso da senhora enferma que ria para se acabar da façanha do seu cãozinho de estimação.
Eu não sei se ela saiu curada do corpo, mas te asseguro que da alma ela foi, pois a deixei rindo a valer, enquanto eu saia desconcertado e vencido por um pequinês ateu, insolente, bruto e enfezado.         
Ouvia-se de longe aquela senhora gargalhando e do meu lado o meu amigo de bigode franzia-o tentando prender o riso que lhe escapava volta e meia.
Ai eu aprendi que há momentos nesta vida que quem ri por último, ri atrasado mesmo. Sorria mesmo atrasado, faz bem para a alma. Duro mesmo é não poder sorrir.  

A Ressurreição De Lázaro!



A Primeira Igreja Batista de Quixangá fica num dos cantos da Praça onde, do lado oposto fica a concorrente do vigário, em torno da feira-livre que acontece todas as manhãs de domingos. Essa pequena cidade no oeste da Bahia fica perto da Cidade do Sol. Como eu fora convidado para ser o orador da série de Conferências por ocasião do seu aniversário, ali repousaria os pés e a alma por três longos dias.
Era incomum não haver a EBD – Escola Bíblica Dominical – por onde eu passava, mas ali a feira-livre tornava o processo pedagógico inviável pelas manhãs, por algumas simples razões – alguns dos irmãos daquela igreja viviam do que vendiam na feira; outros para viver dependiam daquilo que os irmãos vendiam e a igreja precisava da feira e de todos os que para lá iam, a fim de sustentar o pastor que além de ir à feira nela pregava o evangelho. Na feira o pastor estava sempre trabalhando.
A cidade inteira ia à feira, posto que nela, Deus e o diabo concorriam pelas almas e digladiavam pelos homens entre barracas, frutos, legumes e cacarecos. À bem da verdade, o pastor também precisava da igreja perto da feira e da feira perto da igreja, uma vez que dependia ele mesmo, da feira e da igreja, como os demais, que simplesmente sobreviviam de ambas. O fato é que tanto a feira quanto a igreja eram juntas, o coração econômico e social da cidade. Para ali convergiam anjos e demônios, santos e profanos, salvos e perdidos, o roceiro e o aristocrata, o rico e o pobre, o inculto e o artista bem como todas as noticias boas e ruins. Na feira todos era um só coração, visando o bem comum. Nela todos os credos e cores dialogavam.
O pastor, dono de uma barraca e de uma voz privilegiada, fazia valer seu talento de pregoeiro para vender seus produtos aos clientes curiosos que passavam os olhos sobre a mercadoria exposta ao Sol. Aqui e ali o santo homem de Deus entre gritos de “olha a laranja, a banana e a uva”, quando oportuno, amealhava uma alma com a pregação do evangelho. Eu mesmo o vi atuando com veemência sine qua non entre o santo e o profano. Quando inquirido sobre sua relação entre mundos distantes, este disse estar habituado à relação de levar a vida sendo ponte entre os abismos de suas tarefas, pois a vida exigia que o fizesse.
À noite a igreja estava em festa e abarrotada. Havia gente por todos os lados – nas janelas, nas portas e basculantes. Eu era o convidado especial, no entanto, ilustre mesmo era o Nazareno, que estava sendo celebrado com muito louvor entre os irmãos que em trajes de gala – verde, amarelo, vermelho, azulão, banco e outras cores fortes – embelezavam a cena e juntos agradeciam a Deus pelo dia que tiveram e pelos resultados da feira-livre.
Tudo ia maravilhosamente bem até a hora da apresentação da peça. Quixangá passou a ter para mim sabor inigualável. Apagaram a luz do santuário. Do altar, eu já não via a mais ninguém além dos que à luz dos postes postavam-se nas janelas. Nas cidadezinhas todos param para ver uma pantomima, sobretudo, àquela de tema tão esplendoroso: “Morte E Ressurreição De Lázaro”. A visibilidade fora voltando à luz de velas – as quais faziam parte da cena; um fundo musical de um som de guitarra desafinada dava tom à narrativa. Um narrador gago e tropicando nas palavras assentado no batente do meu lado, e o povo atônito esperando o que havia de vir.
De repente, algumas jovens vestidas com roupas características do mundo bíblico entraram tecendo o frágil texto que montava a história. Impressionado, eu sequer havia notado o sumiço do pastor. Imaginei que este tivesse ido resolver qualquer coisa de ordem fisiológica, pois não existe melhor hora para aliviar a bagagem que estas de intervalos no culto. Daí, sosseguei a minha mente concentrando-me no que se dava ali à meia luz.
A peça ia a vento em popa, todavia algo passou a me intrigar, uma vez que notara que da história de Lázaro tudo estava completo, com exceção do fato de faltar o objeto central da peça: o próprio Lázaro. Uma hora de enredo desenrolara ante os meus olhos, não obstante, Lázaro depois de morto não aparecia de modo algum. Eu irrequieto, indagava-me como este faria para reaparecer no santuário, visto que a casa estava lotada e seu último representante, um garoto franzino, havia sido levado por quatro outros jovens e franzinos atores para o lado de fora.
Não demoraria a ter a resposta de forma mais inesperada. Havia uma pequena porta dentro do santuário que dava para um pequeno quarto, onde era guardado o material da ornamentação da igreja. Eu só não podia imaginar que na hora em que as luzes foram apagadas o futuro Lázaro ressurreto daí viesse finalizar a peça com um doce sabor de vitória.
Eu confesso que tudo aquilo já estava me dando urticária, mas eu não podia perder a elegância, a final de contas, era a festa deles. O calor quebrava o nosso já fatigado corpo e extenuado eu via o relógio avançando para quase dez horas. Eu orava em meu espírito dizendo – “Meu Deus onde está o pastor que não aparece? Como pode, nem a peça termina com o advento do Lázaro nem o abençoado vem para dar seguimento ao culto”.
A minha prece foi ouvida muito antes que eu imaginasse pedir mais alguma coisa. O Jesus da peça. Um irmão alto, magro e manco gritando: “Lázaro vem para fora! Lázaro vem para fora!”
A porta do quartinho lateral se abriu, algumas luzes ascenderam para dar efeito especial e de lá da absoluta escuridão sai, aquela figura fantasmagórica, envolta num lençol grande e branco cobrindo todo o corpo, com um saco de papel de supermercado na cabeça, com três furos formando os dois olhos e a boca.  
A partir daí eu ria incontrolavelmente, desejando que o pastor viesse logo para retomar o culto. Entretanto, eu logo descobriria a relação existente entre o sumiço do pastor e a demora da peça. Para minha surpresa, o pastor era Lázaro e Lázaro o pastor. Ambos ressuscitaram ali, antes o meu olhar atônito. Bem que ele poderia ser Jesus como certo pastor que vestido num manto, estava mais para monge beneditino que para o Galileu que pretendia representar, numa outra cidade chamada de Quixangá do Sul, no sul da Bahia.
Foi assim que eu, aturdido, aos prantos e risos vim saber que o homem com o saco na cabeça era o meu anfitrião.
Nem tudo é o que parece.
As luzes voltaram a brilhar e eu terminei o meu dia rindo a valer de tamanha façanha.

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Um Mico Em Meus 400 Metros Rasos

(Oi pessoal essa é minha primeira crônica aqui no Blog. Além dos poemas vou passar a colocá-las, afim de dar mais sabor e um novo tom intelectual. Desfrutem). 



Dois dias antes do que passo a narrar agora, eu recebi um email confirmando os dias de quatro a nove como sendo os dias de retiro espiritual da igreja que me convidara para ser o palestrante do evento. Surpreendentemente, eu consegui confundir a data e, o que era para acontecer no mês de março, tornou-se para mim, caso de urgência no dia quatro de fevereiro.
Esbaforido, sem consultar a agenda, visto que a certeza da data grassava o coração, arrumei as malas e cooperei para que todos fizessem a mesma coisa, como se fugíssemos de uma guerra. Tamanha foi a agonia. Pegamos o carro, passamos no Banco, abastecemos num posto e seguimos para Salvador numa profunda sensação de estarmos atrasados.
Eu voava na pista, uma vez que tinha horário para chegar e temia duas coisas, a primeira, enfrentarmos um congestionamento na BR 324, artéria exclusiva para o nosso destino, e a segunda, o engarrafamento no trânsito dentro da cidade para a qual rumávamos. Sabíamos que as duas coisas poderiam acontecer, dado o horário que já avançado, fazia declinar o Sol para o seu ocaso. A noite se avizinhava e a alma tornava-se mais afoita, pois chegar atrasado nunca foi uma coisa que me agradasse.
O fato é que a vida é assim, o que a gente mais teme parece ser o que mais atraímos. O objeto do meu temor se me sobressaltou. Um acidente na pista provocou a paralisação de todos que seguiam de costas para o Sol. Entretanto, o mais desconfortável, para nós, foi o fato de ficarmos cerca de uns quatrocentos metros do local onde estavam as vítimas.
Ansioso, eu decidi sair do carro e postar-me de pé ao lado, no corredor, para fugir do calor que era terrível e tentar entender o que estava causando o meu atraso para o compromisso da noite. Dono de uma natureza intempestiva, aventureira e solidária, eu peguei minha objetiva (máquina fotográfica), sob o protesto intenso da família, desci a ladeira rumo ao desconhecido. Eu morreria se não desvendasse o mistério. Já me dava urticária ficar ali ignorante de tudo e fazendo conjecturas.
À passos largos, com o pé protegido com uma meia que deslizava num sapato semi-folgado por conta do declive da pista; uma bolsa do lado, todo engravatado segui afoito e célere.
No caminho eu passei por diversas pessoas irrequietas assentadas sobre, dentro e ao lado de seus carros. Alguns veículos de cargas de bois, galinhas, porcos e cavalos entremeavam os carros particulares; e eu, aturdido, suando, prestes a escorregar, desviava de seus sons naturais corria crendo no êxito da minha missão.
Aquele parecia um dia para ficar na história. Ao aproximar-me do local desejado, trezentos e noventa metros depois do meu lugar de origem e de onde eu jamais deveria ter saído, notei que o problema havia sido  solucionado. Eu via de longe uma multidão cercando o local, todavia, ao aproximar-me, vi-os voltando ligeiro para os seus carros. Indaguei aos que passavam por mim sobre o que seria aquilo, temendo inclusive uma explosão, uma fera à solta ou um louco armado, contudo, estes me diziam estabanados:
_ A pista foi liberada.
Outros diziam:
_ Corra que a passagem está livre.
Ao olhar para trás os avistei vorazes, entrando em seus veículos. O meu coração sentiu pavor, pois o que eu temia, novamente viria sobre mim. Sequer eu pude ver o que de fato estava ocorrendo na pista, somente o carro da ambulância que estava na contramão sobre o meio-fio, entre as duas pistas, com suas luzes vermelhas ligadas, a Policia Federal que irrompia o acostamento com sua sirene ligada, provocando a poeira e um corredor apertado e longínquo para que eu voltasse em tempo hábil.
Rindo da situação e ainda ouvindo as vozes de protestos, eu agora podia imaginar as suas faces de reprovação e risos sobre o meu infortúnio. Na minha mente o mundo e as forças do mal conspiravam contra mim. A minha gravata já estava pendurada nas costas. A máquina que levava na bolsa não fez nenhum registro. Com os meus 110 kg eu corria os 400 metros rasos e fundos num desespero gritante. O coração prestes a sair pela boca, o peito ardia  e as pernas me faltaram. A coisa foi ficando dramática porquanto, além de vários conhecidos gritarem o meu nome – Pastor Robério tá malhando hem? -, e eu confesso que não os vi na descida e muito menos na subida, pois no ritmo que eu estava, malmente dava para enxergar senão os carros que sinalizei para guardar o território onde havia deixado o meu. 
Mugidos, relinchos e odor dos animais me serviam de GPS e mais nada. Eu sequer tinha notado que o meu carro estava escondido ou se escondendo de mim atrás de um caminhão. Quando olhe para trás notei que todos se iam embora e a pista foi ficando mais liberada. Eu precisava chegar antes que os carros que estavam imediatamente a frente do meu saíssem, pois a tensão que se vive nessa espera é mortal e as pessoas pressionam os mais lentos. Agora eu seria o motivo do atraso.
Ao chegar ao meu Pit Stop, com a língua para fora, o suor escorrendo pela gravata, os olhos turvos, garganta seca e escondendo todos os segredos do vexame da subida, assentei-me ao volante e foi a conta de ligar o motor e sair. Tudo que eu previra na minha maratona solitária, deu certo. Os olhares e os sorrisos denunciavam que eu merecia ao menos uma medalha por tamanho mico.
Ao passarmos pelo local do acidente lá estava um carro desvirado, pois tinha encapotado ao bater no fundo de um caminhão que transportava laranjas. Vários sacos de laranjas no chão e o véu da noite cobrindo o olhar. Seguimos avante, Gabriel, Talitha, Tábatha, Manoelita e eu o maratonista desajeitado.
Mais trágico ainda foi saber horas depois, que aquele não era o dia da pregação e que eu estava 30 dias adiantado. Por educação o Pastor, meu amigo, deixou-me ministrar e assim, eu narrei-lhe minha desventura. A igreja riu a valer e ao final, houve uma visitação do Espírito Santo na qual, 12 vidas se converteram a Jesus, a igreja foi quebrantada, enriquecida pela Palavra de Deus cujo tema, ironicamente, era - Não Desça Ao Vale De Ono em Neemias 6.1-4 -, e nós voltamos abençoados e regozijados com tudo que vimos e vivemos no fatídico, 04 de fevereiro de 2011. Ao final eu aprendi, que nem tudo que começa mal tem que terminar mal.    

sábado, 5 de fevereiro de 2011

Folha Seca



Hoje eu entendi que cuidar das rosas ao pé do muro é um ato de amor.
As flores possuem o poder mágico de startar sentimentos nobres e belos.
As rosas nos arrebatam para longe e nossa alma divaga entre espinhos, perfume e flores.
De longe vêm as coisas das quais sentimos saudade.

Foi assim que ontem, o longe me deu de presente a fragrância da eterna beleza numa doce lembrança.
De longe o vento trouxe-me uma folha seca, que grudou em mim.
Quedei-me calado. Assustado franzi o olhar.
Era uma folha voante, dessas que se apegando à nossa face,
E beijando-nos, asila-nos no mundo.

Eu me senti tocado pelo dedo de Deus.
Absorto, fiquei mergulhado numa sensação de eternidade: um eterno agora.
Poucas vezes eu havia sentido esse adejar profundo.
De onde poderia estar vindo?
Não sabia ao certo.

As folhas, meu senhor,
Quando fogem é porque rejeitam desaparecer, decompondo-se.
Folhas fujonas são folhas leves que o vento traz.
Secas, mas com memórias vivas do tempo de glória entre galhos no ramo.

Folhas fujonas são folhas que querem tornar-se inesquecíveis, presentes para algum caderno ou agenda que esconde poemas de amor.
Outras são aquelas que pairam fixas em quadros ou obras de artistas.

O fato é que folhas secas fogem para não pulverizar-se ao pé da árvore.

Destino comum das folhas que fingem não sonhar aventuras mil.
Para onde estava indo aquela folha? Ignoro.
Ademais, o vento é assim, transporta em si o que sem destino viaja no tempo.
Indaguei-me sobre a razão daquele encontro.

Introvertido, digo, vertido para dentro de mim mesmo,
Soltei as rédeas das lembranças da história e vi-me à mercê da vida.   
Parado ali eu invejei horrendamente a folha.
Sua missão no ramo que cedia sua razão de ser, findou-se. 

As folhas secas vivem porque são folhas realizadas.
Cumpriram o seu tempo e vinda é a morte em plena fragmentação.
Folhas verdes são folhas vivas; se seca, é pura desidratação.
Folha sem lágrima, cuja alma estancou-se com o tempo.

Folha seca é folha outrora verde, amarela ou simplesmente degradê.
À luz daquela folha seca eu percebi que o verde em mim se foi, quando me fui do último ramo florido de invernos meus.
Galho cuja seiva a árvore de que pertencia não oferecia mais.
Desidratada, minha alma espera as chuvas ou o orvalho da noite.

Sinto-me flor que brota ao pé de cachoeiras em florestas virgens.
Seca, a folha em mim se fez espelho e ai eu descobri o quanto vago pelo tempo à luz do vento que respinga gotas de saudades.
Para onde vão as folhas que chegam e logo desaparecem em silêncio?
Para onde despencam os homens quando feito folhas rumam incertos por ai?


Para onde retornam as folhas e as flores? 
Para onde retornam os homens e os sonhos?
Para onde retornar se tudo aqui é vazio?
Para onde retorno eu?

Quero sair por ai, voando sem destino para vê se encontro abrigo entre folhas de um caderno, um livro que contenham versos com mensagens de amor.
Vou seguir o vento, para ver se ao menos acho o gotejar de uma cachoeira feita à mão.
Quero o sereno da noite.

Quero o orvalho das manhãs.
Quero o hálito da ternura junto a face que transporta sonhos.
Quero seguir o meu destino, folha seca rumo ao mar de amor imenso.
Quero simplesmente o afeto que enternece os olhos.
E de olhos fechados sentir a fragrância de jardins de flores iluminadas ao pequeno Sol, de sóis que habitam em mim de eternas manhãs.    

A folha seca que feriu minha face,
Seguiu para o seu eterno retorno,
E quanto a mim, estou aqui vivendo.
Para onde retornaria eu? 
O meu entorno é vórtice.
à minha beira, tudo é abismo.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Cojunções À Mim Subordinadas


Quanto mais eu sinto o alvor do dia, tanto mais meu coração se alegra.

Porque as aves despedem-se no cair da tarde, pois a noite aproxima-se.
Que farei se a escuridão esconde a beleza das coisas que o Sol revela?
Minha alma é feita de anil, visto que de azuis as borboletas voam á lume.

A leveza do meu ser, conquanto insustentável, se enternece consoante a angústia.
Tal é meu desassossego na espera qual a ave que anseia as manhãs.
Por isso que anelo os ventos embora em mim habite a paciência dos monges.
Sigo as marés já que não posso seguir as nuvens.
   
Meu corpo padece de amor, posto que minha alma saudade tornou-se.
Portanto, como alimentar o espírito, uma vez que aqui, tudo perece no abismo da finitude?
A grinalda cobre o olhar que espera no altar o beijo que sucede a benção no amém.
A poesia mais do que tudo, colore o espaço espesso onde velas iluminam lobbies.

A emoção saltita como carneirinho à relva na montanha.
Bem como saltitam afetos como quando a palavra eclode do silêncio.
As mãos transpiram enquanto o rosto banhado por suor e lágrima tem borrada a maquiagem.
E as flores lá fora sorvem o aroma de perfumes vindos da capela bizantina ainda vicejante.

Sinto-me platéia no anfiteatro dos sonhos, dado que aguardo o passar das horas.
Para onde vão os sonhos quando os homens abandonam-nos? Não sei dizer.
Entre outras coisas meu mundo é feito de fragmentos de saudades e esperanças.
Pior que não ter um sonho é não ser amado, mas não amar dói que nem punhal que traspassa o peito.

Sigo a cada dia o meu dever de querer ser feliz, à medida que passa o tempo, sinto-me em a harmonia com o mundo.
Sou universo que navega a via láctea da alegria, de forma que sibilo canções de amas de leite junto à fonte.
Tenho para mim que a felicidade é tão importante quanto o pulsar do coração.
Como se a vida feita flor, exalasse seu aroma segundo o amor de quem espalha bolhas de sabão.

Ser poeta é tarefa de quem morre de amor pelo mundo e pela vida, que nem os que cruzam os mares.
Daqui do meu lugar atravesso oceanos profundos e diversos, assim como quem voa em balões coloridos pelo céu.
Escrever poesias é cruzar oceanos e voar de balões nas sendas do espírito.
De maneira que é possível avistar-se os mundos de cima, sem perder, no entanto, a profundidade das coisas.

Os poetas precisam de aventura, caso contrário não parem poesias.
Poemas não nascem do acaso, antes, eles nascem de uma alma grávida do mundo.
Eu vou ser poeta um dia.
Quero seguir os passos de Drummond, Neruda e Pessoa, ainda que isto leve tempo.
Mesmo que eu me afogue nas palavras, esgote o verbo e amiúde, venha fenecer sonhando.
Quero mergulhar em gotas de chuva, salvo se o gotejar não for constante.

Quero dar sentido aos sentimentos, desde que o amor se despedace junto à face beijada.
A menos que a mim me reste conduzir o trem da história e seguir os trilhos da eternidade.
Precipito minha alma no que pronuncio, de forma que desnudo o meu ser em tons lilás.
Quanto mais escrevo tanto mais vejo nexo na loucura.

Quanto menos reflito a lógica, tanto menos lógica vejo nas coisas.
Poetas não são paridos, visto que são imortais.
Poetas nascem do ovo, sinto isto, à proporção que aninho a eternidade no amor.
Antes que este poema chegue ao fim, quero seguir o curso do rio das palavras.

Uma idéia surge; não se sabe se feia ou bela. Poesias precisam de um fim.
Qual será o fim das poesias? Poesias servem para serem lidas.
Se bem que podem ser amadas; apesar de que podem ser esquecidas.
Continuarei tentando, nem que o Sol já não brote no céu.

O Sol! Ah! O Sol está se indo com desculpas de que a terra não é mais fértil.
A terra sabe mais de si que os astros. A terra escolhe e acolhe silente as sementes.
Se o Sol não vier não haverá flores; tamanha será a agonia: assim nascem os desertos.
Deserto é Sol divorciado da terra, de maneira que sementes não brotam.
Deserto, é terra infeliz; ao passo que sem flores e sem chuva não sorri o Sol.
  
Quando crescer, serei poeta, a fim de que eu possa pintar o mundo do meu jeito.
Ser poeta faz-me ser o que transporto nos sonhos de há muito, apesar de frágil.
Logo que eu for poeta cantarei a vida, a alegria e a felicidade, sempre que possível falarei do amor.
Sou aprendiz de cancioneiros; de sorte que sou um misturador de letras, aromas, palavras e versos.

Antes que esse poema acabe, acenderei a lamparina, até que a luz de mim ilumine o mundo.
Sinto-me boticário, um arremedo de mago das palavras, todas as vezes que faço uma frase.
O amor em mim é mais que tentativa, é alma posta no lagar cada vez que inspirada.
Mal posso ver a sua face terna depois que finde a degustação dessa sopa de letrinhas feita com amor.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Trilhos Da Luz


Quem sou eu além de pés que andam sobre trilhos?
Sou deserto em tempestade de areia sob um céu de vidro de frente para o mar.
Se sou passos? Compassos apostos compõem minha esperança.
Sinto-me réstea de luz de Sol na janela de quando o Sol está brando.

Quem sou eu além de passos de pés que andam sobre trilhos?
Para onde vão os trilhos? Onde dará esta estrada?
A estrada finda onde finda a palavra.
Ali no lugar onde nasce a contemplação, o encanto e o amor.

Quem sou eu além de uma velha estrada que possui um trilho?
Sou caminho para os pés que anseiam a glória das macieiras.
Ali onde morangos maduros perfumam amoras verdes.
Sim, onde pomares por mares que sejam enternecem o olhar.

Quem sou eu além de um velho rabisco no caderno de outrora?
Sou desenho de afeto feito entre linhas turvas por lágrimas pétreas.
Por onde andará a lucidez que caminha no caminho das aves?
Não sei; só sei que em mim serena a vida que se vai com o Sol.

Meu ocaso é feito de lembranças doces,
De trilhos de ferro e flores,
Meus pomares mais amores na cor do som.
E o Sol estará aqui amanhã às 6h00.