segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Poemas flutuantes!

 
A tábua posta sobre as águas, desliza em silêncio no leito rio.
Peça de um velho barco que sem rumo ruma a ermo à deriva. 
Assim, meus versos que sequer sabem nadar, flutuam silentes por ai.
Para onde iria a minha alma asilar-se se as amoras ainda nem nasceram?
O mundo me deixa nauseabundo quando no fundo, abundo em serena tristeza.
O fundo da minha alma é abismo em cujas escarpas nascem morangos doce.

Viandar é tudo que meu espírito aventureiro anela algures. 
Absorto e melómano, vago por ai a esmo entre becos, ruas e abismos.
A tábua partiu e, partindo, restaram-me o rio, o silêncio e um poema.
Feito Atlas carrego em meus ombros, resistente, o meu próprio mundo e destino.
Os destinos são tecidos por mãos que transportam sonhos e escrevem versos de amor.

Em silêncio o rio segue transportando a poesia, restos mortais de barcos de outrora. Para onde?
Para onde irão o silêncio, o rio, e poemas escritos em tábuas de velhos barcos de marinheiros que amaram a lua?
Não sei dizer. O que sei é que amanhã é primeiro de março e eu espero as águas de verão.
Espero as chuvas que enchem o rio, transportam a tábua e molham o silêncio e e levam poemas de amor,
Enquanto eu, com olhar em riste, volto a face para um ponto qualquer no espaço em busca da minha própria razão de ser.   

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Sinos!



O sino da capela toca,
Ouço seu som distante e belo.
Já não há mais razões para os sinos,
Se os altares estão vazios de sentido.
Se nas capelas nem os pardais sentem prazer.
As andorinhas rumaram para as ruas,
E entre as árvores se aninham de teologias que retinem.
De discursos vazios vivem os templos cheios.
Dói na retina ver as cruzes, os balaustres e as velas inúteis.
O andor se funde ao funeral e o Cristo vivo, 
Levado como morto, morre de vergonha, 
Cora entre os vivos-mortos que em andrajos seguem por ai. 
Zumbis urbanos transportando a fé na procissão e nos cultos.
O Cristo meu senhor, sepultam-no todos os dias, 
Mas ele insiste em ressuscitar. Só muito amor mesmo!
Os sinos tocam e pedem socorro.
As portas dos templos permanecem fechadas mesmo estando abertas.
O que houve com os homens?
Por onde anda o santo? O pároco? 
O pastor das almas? E os fiéis? Entre abismos...
E Deus? Seria ele a badalar o sino tardes e manhãs?
Para quais consciências?
Que espíritos ainda o escutam?
Teologias há em dúzias, vende-se a três por dois.
O mercado é logo ali entre a cruz e o altar.
A feira-livre mais acolá. Quem dá mais, quem dá mais?
Deus é mais! 
Seria esse barulho o insucesso de Deus com o sino?
Para que os shoppings lá fora se os do templo vendem mais barato a graça?
De graça? Nada, nada é de graça! Doce desgraça. 
Os sinos ainda tocam no alto das igrejinhas.
Mas para quem?

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Memória!


Não confio na memória,
Migra para longe quando hibernam seus encantos.
Como posso esquecer a canção que um dia me fez sorrir?
Como posso olvidar a flor cuja folha eu ainda guardo em um livro?
A memória é assim, furta, baila e camuflando se esconde,
Quando mais da sua luz minha lembrança anela.
Não confio na memória,
Lapso de mim que espanta as aves.
Memória curta é punhal cravado no véu do afeto.
Gosto das memórias quando vicejam rosa feito doce saudade.
Mas insisto, teimo e não confio na memória.
A memória é como prateleira de vidro,
Suporta coisas leves.
Quando o mundo pesa,
Ela simplesmente,
Esquece!
Há coisas que foram feitas para esquecer,
Outras para lembrar eternamente.
Mas como pude esquecer o instante eterno em mim.
Minha memória é rã, salta, por isso esqueço. 
Esquecendo eu firo.
Ferindo eu sofro.
Sofrendo eu agonizo.
Na agonia eu calo.
Calado eu choro.
Chorando eu pergunto, por que?
A memória é póstuma,   
Sem dizer palavra renasce e a vida eclode.
Se acarinhada, ressuscita.
Ressuscitando, reconcilia-se com o mundo.
O mundo, passa a ser imagens postas no útero da memória.
E assim, em silêncio espero outro inverno.

Calma!


O mar está ali, calmo com candura e beleza.
Diante de mim, travessias infindas,
Atrás de mim, estradas mortas, onde meu velho coração trilhou.
Sigo como quem segue no lombo de bois por veredas íngremes.

Os bois são assim, calmos como o mar quando visto de longe.
Por que minha alma não se acalma e pega o trem?
O trem que vindo das cabeceiras da serra cerra mundos meus?
Não há ansiedade nos trens sobre calmos trilhos.

Como os bois e o mar, os trens foram feitos para transportar
Sonhos, saudades e o sereno da noite.
Eu preciso aprender que o mar espera o amor que vem de longe.
Que o trem espera o fim da estação, as quatro.
Os bois esperam a poeira da estrada e a canção de boiadeiros em invernos frios.

Eu apenas espero a brisa leve que me leve ao horizonte.
Quero conhecer o mundo.
Quero adentrar as casas e às vidas de gente de outros mundos.
Quero deixar meu coração aberto ao nascer do Sol em calmas manhãs de  espessa neblina e silêncio.   

Tramelas!




A tramela da porta está aberta,
Ah! Essas tramelas abrem e fecham os mundos.
O telhado molhado da última chuva,
Respinga no batente à luz de vaga-lumes ofuscantes.

O cheiro de mato queimado ainda perfuma o caminho.
A cana cortada na carroça roça o chão rumo ao terreiro.
Tudo em mim é neblina e em meu céu nublado não possui estrelas.
A terra úmida faz florir as margaridas; o capim gordura cresce.

O balanço na árvore feito de pneu ainda gira.
Sombras do passado ainda riscam o fósforo da saudade.
Vejo-me menino, correndo, pulando, marejando os pés nas águas do amor.
As horas passam e eu aqui, viajo solitário ao quebranto de outrora.

Nesses quintais eu já fui índio, guerreiro, pivete e bandido.
Pivete é muitas coisas, porque sonha sendo tudo, não sendo nada.
Eu fui pivete, Super-homem, Homem-aranha e até o Zorro.
Minhas máscaras transportei no tempo. cresci, troquei-as por outras. 
Já fui rei, já fui pirata, escravo e jardineiro.

Erasmo tinha razão - Que é, afinal, a vida humana? Uma comédia.
Cada qual aparece diferente de si mesmo;
Cada qual representa o seu papel sempre mascarado, (...)
O mesmo ator aparece sob várias figuras,
E o que estava sentado no trono,

Soberbamente vestido, surge, em seguida, disfarçado de escravo, coberto por miseráveis andrajos.
Para dizer a verdade, tudo neste mundo não passa de uma sombra e de uma aparência, mas o fato é que esta grande e longa comédia não pode ser representada de outra forma (...)

Cada um possui a sua própria máscara.
O meu ser em si, de si se sabe seguro, insustentável leveza.
Fui saci e saciei-me sendo saudade sorvida junto à fonte.
Hoje sou Ícaro e alado, sigo pelo mundo a fora.
As tramelas ainda continuam abertas.  

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Mãe e manhãs!


A minha mãe é manhã.
Das manhãs de outonos, eternas saudades.
Venceu o câncer,
O diabetes,
O derrame,
A Isquemia,
A Pressão alta,
O coma,
Debelou as horas e a espera. 
Riu-se da paralisia total dos membros,
Amou o mundo,
A si mesma,
Criou sozinha a cinco filhos,
Creu em Deus sem desistir.
Rompeu madrugadas,
Venceu o tempo,
O medo,
A solidão,
A separação.
Venceu o dia,
A noite,
A rua,
Nadou no rio de lágrimas sem se afogar.
Superou a fome.
Venceu o ontem,
O hoje e o amanhã.
Quem mais precisa de heróis?
A minha mãe é para mim e meus irmãos, feito Cristo, 
Seio que amamenta vencendo a cruz na morte.
A minha mãe é manhã das manhãs floridas de sóis brandos.
A minha mãe é manhã. 

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Atrás Dos Muros, Há Mundos!


Como um navio ancorado no cais, minhas cordas firmam o mar.
O que pode me abalar se, qual montanha me finco ao chão?
Sou jangada feita ao mar, de amor em costas onde a areia espera.
À deriva me deriva os sonhos feito brisa leve quando toca a face.

Deveria eu que sou poeta ser corais de esperanças mil?
Sinto-me caracol preso à minha concha, casa onde moro.
Transporto em mim o meu abrigo insólito e na areia dilato a vida.
Sou portador da paz em versos quebrados como ouricuris maduros.

Minha espera é moenda que desfaz meu canto feito amêndoas.
Sorvo o vento que, faceiro, passa pela praça onde meninos brincam.
O coreto, ponto de alegria é contraponto em meu amanhecer nodal.
Minha alma quer como diz Adélia em sua Moça na Cama “(...) adiar meus crepúsculos” – pois, (...) “os muros tem seus atrás”.

Atrás de mim há caminhos...
Quando me sinto sozinho,
Vejo-me atrás de destinos como de espelhos,
Atrás de tudo há sempre outro atrás e de mim só resta a lembrança que ficou para trás.