sexta-feira, 19 de junho de 2009

Entre Abismos


Quando criança eu tinha o hábito de andar de olhos fechados sobre os muros da cidade,
Brincadeiras que teciam a alma, enquanto a mente entretecia sonhos.
Tudo era muito seguro ao anil do olhar que fitava o céu e as coisas;
Não olhar se tornava a atração mais divertida para a alma que se sabia frágil vida.

Pernas acinzentadas,
Corpo esguio,
Lábios ressecados,
Alma aberta para mundos além dali;
Uma brisa leve parecia beijar a face tenra de um menino sonhador.
De braços abertos,
Eu andava sobre os muros me fazendo parecer flutuar
Entre o céu e a terra.

Era como um vôo solitário,
Eu sequer olhava o perigo ao redor.
Meus pés rumavam claudicantes enquanto a imaginação me vestia de Peter Pan, numa aventura contra seu algoz: Hook.
Logo meus olhos se abriam e tudo voltava à normalidade.
O vento já não era mais o mesmo,
O chão parecia roubar de mim outros chãos,
Aqueles que a alma segreda quando o mundo cala.

Hoje eu cresci, mas preservo em mim a sensação dos dias passados,
Meus olhos se fecham quando quero encontrar aquele menino;
Ele habita meu mundo interior e eu o habito, enquanto passo os dias.
Como criança eu pensava: a gente vê melhor com os olhos fechados.
Os olhos da alma se obrigam a ver aquilo que os olhos da face não podem ver.

Vejo melhor quando a face se cala,
Sinto melhor quando a alma se abre para ver,
Ando melhor quando apenas vejo o que meninos vêm quando brincam de fechar os olhos nos muros que separam abismos.
De olhos fechados eu creio,
De olhos abertos sou senhor de mim mesmo,
De olhos fechados me entrego,
De olhos abertos resisto,
A alma que sabe ver vê melhor quando os olhos se fecham,
Porque em si mesma, sente, interpreta e percebe o mundo.

Vejo melhor quando sinto,
Quando nasce em mim a pergunta do profundo silêncio:
Onde estou? Quem sou eu? Para onde Vou?
E se nada respondo é porque ainda mantenho os meus pés sobre o muro e na face, a brisa leve anuncia mais uma travessura.

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