domingo, 28 de dezembro de 2008

O Sol Que Ainda Brilha



O sol brilha lá fora,
E eu, daqui, avisto mundos,
Pela janela que dá para o futuro.


Sua luz me aquece levemente,
E meu corpo feito bolha de sabão
Flutua suavemente, enquanto minha alma sonha.

O vento espalha pelo mundo afora os grãos de areia
Que peguei às margens do rio da vida,
Na terra vermelha de chão batido,
Torrão de poeira entre brejos e pantanal.

Minha alegria é visitante faceira,
Chega, entra e sai sem esgotar sua beleza.

O pó-de-cerra da madeira cortada no último inverno,
Ainda arde nos olhos que desmata a mata virgem.


Floresta feita pó em serras mortas de amores idos,
Ali onde o machado está posto sobre a raiz da árvore,
Onde somente a semente da esperança pode brotar.

Adeus às aves;

As cachoeiras minguaram com a sede dos homens;

Aos animais restaram os entalhes e as fotografias do passado,
As fontes do amanhã anunciam a morte da vida de hoje.

A indústria matou a mata,
A ciência constrói o homem que destrói a sua própria casa.

Na verdade meu senhor,
A única coisa que nós os homens temos em comum são as estrelas.

O sol ainda brilha lá fora,

Ainda...”

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

Olhos de Esmeralda


“Ainda lembro-me do teu olhar inundando-me feito um oceano;
Seu verde esmeralda ainda brilha nos meus saudosos olhos.

Eu, uma fera ferida de caçadas infindas,
E você a bela sofrida, cansada de caminhar entre espinhos.

O mar dos teus olhos me calou a alma,
E calado, parei para ver a luz que refletia os meus.

Minha face enternecida pelo teu terno semblante,
Viu ruir o castelo da solidão,
E assim, a vida se fez flor.

Ali onde reluziu o sol do teu sorriso,
Lugar onde enxerguei a face do teu amor,
Onde bebi o mel da tua beleza,

Sim, onde Deus me fez ressuscitar da invisibilidade,
E a vida me fez sair da tumba fria do medo.

Ainda me lembro do teu olhar-esmeralda,
Quando o verde dos teus olhos alimentou os meus;


Onde a poesia quedou silente à face da ternura;

Quando como tocha acesa na escuridão,
Teu fulgor clareou o fundo escuro do universo dos meus olhos;

Minhas janelas para a vida encontraram tuas retinas
Feitas de sonhos, de versos, cores e esperança.


Sim, eu ainda me lembro”.

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

O POÇO E EU




“O poço é fundo e as horas rumam firmes no trilho do tempo;
As pétalas de acácia seguem as corredeiras que morrem em queda-livre;
Seu perfume agreste destila a vida que colore o chão e contrasta ao tom azul do céu;
A sede leva o homem ao pote e este, se faz à fonte que se dá no poço;
Águas puxadas à manivela com cordas que descem em gargantas profundas.

O poço é fundo;
A vida é profunda e sua garganta é abismo.

O homem é abismo,
A sede é profunda.
O poeta é poço que gera águas de fontes raras.
Poemas são águas de abismos;
E eu, sou garganta profunda de uma eternidade de amor,
abismos de mim, poços feitos em quintais distantes”.

Crepúsculo



“Se o mar é meu,
Meu é o sol,
Meu é o luar de prata,
Meu é o crepúsculo dourado no céu.
Se o amor é meu,
Meu é o olhar que da janela vê jardins floridos,
Meu é o vento que transporta o cheiro das maçãs,
Minhas são as manhãs de sóis intensos,
Meu é o sorriso que em silêncio muda mundos,
Eclipse de poemas de outonos em poetas de invernos;
Minha é a vida leve e a liberdade de ser feliz”.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Mexericos Da Noite


“A vida quedou silente na pétala de uma flor;
Parada ali, sugava-lhe a essência enquanto doava-se.
Zumbindo, contou-lhe segredos;
Voando, tocou-lhe a ternura;
Mexericos da noite,
Quando rosas e bromélias cochicham entre si.

A vida bebeu-lhe o néctar,
Enquanto, dizia-lhe poesias de amores eternos.

A vida, sorvida em paz,
Cedeu à flor uma canção de ninar,
Bela,
Tenra,
Exuberante;
Uma forma inesquecível de amar;
Flagrante desejo,
Uma nesga de ser que se desfaz em verso,
Que se refaz no tempo,
Que somente os seres alados podem entender”.

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Memórias de Mim




“Logo eu descobri que as coisas não são o que parecem.
Ilude-se quem pensa que olhos de crianças não vêm além de imagens;
elas não enxergam apenas a coisa dada na sua forma nua e crua,
elas interpretam e calam em si o que lêem.


É certo que meninos sabem ver a essência, o interior de cada coisa;
suas almas leves transportam em silêncio o que vêm,
levam a pureza e a verdade no olhar e vêm o ser ou a coisa em si.


Tudo passa pelo crivo de seus sentidos ainda informes.
O fato é que crianças vêm mais que coisas frias e rígidas;
elas fundem mundos, criam formas daqui, dali e d´além.


Crianças desenham sonhos enquanto pintam,
e, pintam enquanto brincam de olhar;
percebem os mundos ai ao entorno de suas vidas frágeis,
e tudo se transforma enquanto transformam tudo.


As nuvens passam a ser algodão-doce,
o sol, uma lanterna acesa em pleno dia,
e a lua, um delicioso queijo suíço;
era assim, que eu mesmo via a tudo,
quando não era visto por ninguém.


O mar, era como um céu invertido,
e, o céu, um grande lençol-azul sobre a cidade;
os rios eram estradas feitas de espelhos d´água,
e as montanhas, corcovas de camelos montados por meninos saltinbancos.


A chuva, era como uma prisão de grades transparentes,
e dela aninhava-me,
quando queria assistir as gotas saltando como carneiros na grama,
mas, sem demora, nela corria em disparada feito cavalo selvagem.


O arco-íris, era um portal aberto para mundos encantados,
longe dos olhos e da agonia da vida;
mundo distante dali, do lugar da tristeza do mundo dos adultos,
vítimas de uma vida sem glória.


Sim, sinto saudade do meu tempo de criança.
Ainda vejo o menino sorridente que fui, deitado ali na laje de casa,
adejando sobre o tempo que a tudo vence.


Nunca me despedi desta criança que mora em mim,
pois, ainda hoje insisto em olhar as coisas e as pessoas do mesmo modo,
buscando a verdade e a pureza além da imagem e do estereótipo delas”.


sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Gotas de Chuva


















"Uma gota me olhou, equanto parada ali na ponta de uma folha de limoeiro,
seu gotejar parecia ser seu último suspiro,
seu último salto,
seu último brilho ao olhar de quem a percebeu, gota solitária,
da chuva que dizimou seus desejos;
sim, apenas uma gota feliz,
porque notada no seu último instante.
Uma gota me sorriu, enquanto eu, parado ali na ponta da folha da minha existência;
insistência inútil".

Abandono















“Fagulhas de mim esvoaçavam no céu da minha solidão,
E eu, parado ali junto à janela do olhar, desejei ver o sol.
A fogueira ainda ardia na beira do poço.
Enquanto, sua chama iluminava o rosto, feito sonho de menino,
Em alguma fenda aberta entre o passado e o futuro,
Pairava meu pensamento.
As aves se foram,
As estrelas se foram,
Ninguém ao pé da fonte importava-se,
com o olhar que se sentia só;
As crianças se foram,
Os velhos se foram,

você se foi,
Apenas restou a lembrança do adeus.
Todos se foram,
E eu fiquei só,
Abraçando a mim mesmo,
Enquanto meu ser sorvia o último olhar,
Um misto de amor e desprezo,
Lugar comum dos esquecidos,
Onde morrem o desejo, o amor e a poesia,
Terra onde transe o menino que renasce,
De outros abandonos,
Que se encolhe no canto em busca de um abraço,
Em busca de quem realmente se importe”.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

À Cris Com Carinho (In Memorian)
















Fica em nossos corações o carinho pela Cris.

(In Memoria)


"Uma flor se fez notar na estrada empoeirada dos nossos sonhos,
o luar tocou-lhe as pétalas,
o vento soprou sua brisa sobre seu sorriso meigo,
sua voz,
uma vez ouvida, enchia nossa alma de alegria;
uma flor nasceu no caminho que percorriam nossos pés sedentos de desejos,
sim, ali onde abraços acalentavam solidões,
onde gestos de amigos se faziam aceitos na dor contida da saudade;

Cris as cortinas se fecharam, mas nós estamos aqui,
a peça vai continuar,
o palco da vida no qual tu eras estrela nos convida à tua honra,
jamais esqueceremos, jamais te apagaremos da lembrança,
que saudade de ti minha amiga,
que saudade do teu sorriso,
do teu brilho, quando ao lado do Dan celebrávamos teu aniversário;
uma flor nasceu no nosso jardim,
mas, as flores também fenecem,
o vento se cala,
o luar se vai,
e nós, somos convidados de novo a continuar".

Pixotes

"Portugal me é terra alheia,
aqui mareiam os meus olhos,
versos de mim na areia do mar, do amor que restou em mim;
meu país é minha casa, meu torrão natal, lugar onde não sou estrangeiro,
sou brasileiro nato, fui menino maroto, garoto pobre na terra do sol,
fui pivete sem ser bandido, pixote sem ser trombadinha no sertão nordestino.

Terra que define o ser tão nordestino.
Ah! que saudade do lado de lá!
As aves que aqui gorjeiam são as que restaram nas minhas vívidas lembranças de lá,
cá habitam outras aves, outros rios por onde se navegar.

Espinho é terra que fere, que fere as cordas da saudade,
enquanto renasce a canção,
aqui me sinto poeta de naus que para lá já não despertam as marés,
nem transportam negros escravos nas galés;

sim, aqui me sinto meio bugre, meio mestiço,

meio afro, meio órfão, meio tímido, no meio do mundo,
me sinto só, mesmo sendo amado,
me sinto um pássaro longe do seu ninho, longe de sua prole;
sinto que não é o meu fim nesse fim de mundo, nesse mundo sem fim.

No fundo, existe em mim uma estranha sensação,
a de que nasci numa terra que não valoriza seus filhos;
todos aqui do além mar têm uma pátria mãe,
mas sinto-me órfão da minha.

O Brasil é uma pátria que nos expele ainda no útero,
Somos órfãos nessa pátria que se diz uma mãe gentil.
Desse modo, muitos brasis nascem e morrem e mim agora e sempre,
Terra abrasadora, onde meninos choram e velhos morrem nas filas de hospitais.

Portugal me parece um lugar digno,
mas sinto que a cada passo,
em cada centímetro, piso no sangue dos meus irmãos,
aquele à custo de suas vidas erigiram esse templo de tamanha riqueza,
mas o notável, é que sente-se na alma do povo sua garra pelo torrão natal.

Aqui meu senhor,
Ordem e Progresso não está escrito na bandeira,
mas no coração da gente que faz melhor o seu próprio ninho.

Dizem que Deus é brasileiro, se o é, ele é mulato e usa gibão de couro.

Assim adormece em mim a poesia lavrada na pedra de engaste das horas,
e meus sonhos mesclados na cor de ambar não passam de mero algodão-doce,
na mão de meninos que vêm da escola,
correndo nas ruas de ontem,
sem nomes,
sem faces,
apenas sombras,
fazendo algazarras ensurdecedoras e chutando latas.

Pixotes,

donos do mundo e da liberdade”.

Lugar Sombrio



"Nunca pensei que o sol pudesse negar a sua luz;
fez-se pardo o amanhecer na selva de pedras,
entre prédios e metrôs, somente o olhar ébrio,
ao som de velhos sinos que já não tocam mais como antes os corações,
no topo de igrejinhas que morfam na tela da pós-modernidade.

Nunca pensei que as igrejinhas pudessem negar a sua luz;
a noite despertou cedo no coração da cidade impenitente,
e de trevas se cobriu o sol, ferido por já não ser notado como dantes;
os galos que cantavam nos galhos daqui, já não cantam mais,
e as cigarras, outrora presas nas árvores, calaram-se e partem-se de angústia nos vergalhões dos prédios em construção, longe dos candeeiros.

Nunca pensei que os candeeiros pudessem negar a sua luz;
ledo engano; as ruas de chão batido, terra molhada,
deram lugar a ânsia de homens que em seus cavalos de quatro-rodas destroem as camadas de nós e a camada de ozônio;
esta que, lá do alto, já não se encanta mais com a marcha lenta do passo do gado,
ao som da melodia de vaqueiros e boiadas que trilhavam veredas entre vaglumes e vales,
sem razão;

Nunca pensei que a razão pudesse negar a sua luz, doce ilusão.
Quem tem razão?
Que tem a razão?
Quem tem a razão?
Que razão?
A razão dos intelectuais, politicos e da elite que construíram o futuro à ferro e fogo,
mesmo sem razão?
Milhares de olhares clamam por ajuda e ela não vem.

Nunca pensei que o olhar pudesse negar a sua luz,
faces gélidas que vem e olhares sombrios que se vão,
rostos estranhos, perdidos,
pedindo socorro por trás do sorriso ou do silêncio sepulcral que encorpam.

Todos sentem medo, se apavoram e travam um monólogo com seus Si mesmos.
Vidas secas que se distraem enquanto sorvem a fumaça das ruas que as destroem e matam o ser.

Nunca pensei que o ser pudesse negar a sua luz,
desde o menor ao maior, todos se postam silentes enquanto definham,
os vagalumes gemem por um lugar à escuridão,
mas já não encontra olhares que se importam.

Alguns seres, apagaram-se com o último gole da bebida servida no último bar
aberto na encosta da noite.

Porém, o ser é coisa sem fim,
renasce, mesmo não sendo convidado;
é semente que ressuscita de Si para Si e de novo".

Prenda Minha



"O sonho se fez ave na fenda das rochas da vida,
e a luz que pude ver, me fez melhor e mais completo.

A luz que o sol não pode oferecer às flores solitárias,
mas, somente àquelas que se permitem iluminar;
sim, como eu, eu mesmo, uma flor solitária na rua da saudade.

Sinto-me flor solitária, arbusto no deserto da existência,
busco encontrar minha luz, para fazer-me completo;

pleno em mim mesmo;
mas, busco ser pleno em ti,
a flor mais formosa,
na busca de mim, desejo ser meu ser inteiro.

Um ser outrara em pedaços,
mera nesga de flor que se fez ao vento;
hoje completo, inteiro em mim mesmo e feliz,
busco dar-te a luz, pois assim,
só tu prenda minha,
moras aqui nas fendas escuras que dividem o meu ser,
lugar onde te acolho em silêncio".

À Janice Pereira Com Carinho


"Vi a vida em flor fazer-se ninho no penhasco da saudade,
vi um balanço da infancia ir e vir,
até ficar vazio o peito rebentou as lágrimas da dor do carinho de ontem,
e o tempo passando, me lembra, isto é a vida.
Vida que se faz prece no olhar silente da criança que mama,
e no coraçao de todo aquele que ama ... a vida,
a vida que é mar,
amar,
amor de mim que verte em versos a solidão".

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Encanto



"A timidez do meu sorriso,
o silêncio do meu olhar,
calam o amor que grita
em versos, em prosa, em canto,
o meu encanto.

Enquanto te vejo,
percebo um mar de beleza incomparável,
o que seria de mim
sem o teu abraço,
que acolhe o universo
do meu ser finito.

Ao seu lado, o mar
se desfaz em ternura,
o sol se faz fogo
que arde o peito,
enquanto o corpo
faz da eternidade um lugar
pequeno para nós dois.

Assim eu decobri que em ti
que o amor de Deus se fez carne".

À Talitha E Tábatha Com Carinho. (18 de Junho de 2008, Portugal)




"A vidraça qubrada no canto da janela,
Fez entrar um vento frio do inverno que sorria pálido lá fora.
O som da rua transiu meu olhar saudoso,

E a voz das aves despertou minha paixão infantil;
Notei minhas rugas na face cansada de ver as estradas,
Rumos certos e incertos de uma vida que goteja sonhos,
A taça de amora dos dias de outono quebrou-se ao pé do pilão;
A lareira ardia na sala da solidão enquanto a lenha, como uma sarça, não se consumia,
Ali, ao frescor do vento frio que destilava o odor das flores caídas ao chão,
Meu corpo de menino era acolhido por um cobertor de fazenda;

Vida breve! Mesmo aquecida, passa diante dos olhos, seguindo as gotas da chuva,
Que caem na calçada, onde apenas a lembrança dos meninos de ontem, formam corpos que esvoaçam a areia na estrada que liga ao amanhã.

Foi-se o ardor do sol, a lua de tímida nem dá sua luz,
E eu, aqui, penso nelas, Talitha e Tábatha, minhas princesas;
Quem me dera poder realizar os seus sonhos agora,

Quem me dera, eu mesmo,
Ser um brincalhão,
Rolar com vocês na grama,
Dançar na chuva
E correr empinando papagaios novamente,
Sinto saudade de vocês.

Meu mundo não é nada se não posso beijar suas faces,
Minhas pequenas!

Ah! Se o vento pudesse levar esta poesia,
E soprasse aos seus ouvidos o meu amor.

No vosso castelo queria ser o bôbo da côrte, pois, ser rei é cansativo,

Reis não chupam pirulitos,
Não brincam com o barro,
Não brincam de roda, nem fazem rir,
Sim, eu queria ser o bôbo da côrte,
Para fazê-las felizes minhas princesas e rirem à vontade,
A fim de fazer da nossa dança na sala, ao som da valsa vienense,
O lugar do banquete da alegria,
Ali, onde Deus caminha com a gente e se assenta,
Enquanto se encanta com a obra das suas mãos: Vocês."

Em Amor

À Manoelita Com Carinho - Espinho - Portugal 19-06-2008





“As begonias continuam ali onde vicejam às tardezinhas de outono,
e um ar de flores do campo me envolveu a saudade, enquanto, o tempo como um túnel se abriu ante os meus fartos olhos.

À medida que voltava o tempo, eu te vi, e me detive no começo, sim, no começo de tudo, quando teu doce olhar me encontrou pela primeira vez;

eu era apenas dor em forma de gente, minhas chagas não te foram encobertas,
mas, tu simplesmente sorriste, enquanto, tua mão tocava a minha frágil vida,
uma prece solitária eclodiu na eternidade.

Éramos dois, nós dois apenas, duas histórias simples e belas de se contar.

Vi o teu gentil olhar no interior da igrejinha onde nos tornamos um,
para dali nos tornamos três e depois quatro.

Talitha nasceu e a vi no corredor do hospital entre o teu e o meu olhar,
parte de mim estava ali, mas era a ti que eu via, enquanto, fitava a bela criança que sorriu e chorou, num inesquecível e singular instante.

Lembro-me também, quando Tábatha nasceu, pequena, singela e formidável.

Vi os teus olhos brilhando, mas não podíamos esconder a tristeza dos dias que vivíamos; assim, nós descobrimos que há flores que só nascem entre abismos.

Eu ainda me lembro;
dói em mim saber que nunca consegui ser o herói que desejei ser para ti, sinto-me distante de tudo que fui como promessa para teu mundo de sonhos.

Prometi a mim mesmo que acertaria, muitas vezes,
mas, fracassava a cada tentativa com esse meu génio indomável.

Aqui faz frio, um tipo de frio diferente, aquele que só a alma sente quando está longe, longe de casa, longe de si e do ninho e de tudo.

Lembrei-me quando a gente voltou para morar no barracão,


Vida dura, pura e simples, marcada por ternura e amor respingado de sangue,

Vi a tua força e as tuas lágrimas, e entendi o porque Deus me falava tão bem de ti.

Daqui da minha janela enquanto faço minha oração, eu posso sentir o vento;

Ah! Sabe qual é a cor do vento?:É lilás, com um tom de azul-turquesa nas bordas; além dos meninos, só os poetas podem ver a cor do vento.

Minha mente viaja enquanto minhas mãos te escrevem; onze anos se passaram!

Lembra quando brigávamos e terminávamos orando abraçados, e nossa casa de madrugada, ficava coberta de nuvens?

Quem passava na rua não nós via e nós não os víamos passar.

Poucas pessoas passaram na rua da nossa solidão e angústia.

Morávamos no mesmo lugar que moramos hoje, num lugar sem muros, sem fronteiras,

Morávamos e andávamos literalmente nas nuvens, e nos acolhíamos na neblina da noite.

Poucos souberam o que passamos.

Além de mim pouca gente faz ideia da grandeza que és tu.

Resolvi fazer-te um tributo, pois, reconheço que se tenho alguma coisa,
ou se sou alguma coisa, devo a Deus e a ti.

A viagem no tempo me traz ao presente, e sabe o que vejo em mim?

A indivisível força do desejo de ser para ti eu mesmo, teu marido, amigo e irmão, pai das duas jóias mais lindas da minha vida.

Não cuidar de vocês é negar a Deus e a mim mesmo.

Eu gostaria de saber e poder ser melhor.

Acredite, como eu gostaria.

As begónias ainda estão ali,
e em minha mente se inscreve uma palavra de amor: Manoelita”.

Em amor

Sozinho


É madrugada e o peso das horas move em mim o pêndulo da ansiedade,
E aqui, do meu lugar, observo manhãs que já foram mais belas,
num ontem não muito distante do meu mundo em processo.

De alguma maneira sinto que não estou só, mesmo estando;
o baile já acabou e o sol vem despertando as aves que dormem encolhidas,
ai no limiar da vida, onde o véu da noite deitou sutil o seu olhar.

Respiro, paro, penso, repenso e respiro novamente;
a mente naufraga em pensamentos vãos que não constroem castelos;
a resposta certa não vem, e sem ela não vem o sono, travesso brincalhão.

Nas colinas o ruído sereno de mato verde molhado do sereno da noite;
ruas vazias de sonhos, estradas grávidas de pés que voltam incertos para lugares frios;
meros corações contidos pela dor de quem não sabe ao certo em que porto ancorar.

Minha dor; dor de muitos; dor de poucos partidos em partos, parcos pratos sem sabor,
dor do Deus que doa dons diversos aos incautos aventureiros,
dor de quem não viu partir o trem que levou o último abraço e olhar sinceros.

Respiro, paro, penso, repenso e respiro novamente,

esse tic tac do relógio da angústia é mortal para mim,quem sabe a dor da espera conhece e voz do desejo que não cala no abismo do tempo.

Portugal tem Espinho que fere a rosa que exala o amor;
o Porto é caís para as naus que vem de longe, de muito longe,barcos solitários, calados, ao som das ondas que golpeiam as pedras.

Quem me dera mover-me à velocidade da luz,
correria planetas, mares; tocaria as estrelas e daria a volta ao mundo, porém, vejo meu corpo limitado, amargar a espera das horas que zombando passam devagar.

Respiro, não paro, não penso, respiro novamente;
E aqui, do meu lugar, abatido, sinto-me sustentado pela única luz que brilha no fim do túnel escuro que me espera: a certeza da tua presença Senhor”.

O Mar E O Amor Em Mim



"As águas do mar da saudade dançam em silêncio,
todos os dias ferem a face das rochas no cais da solidão,
turvos olhos de amor a procura de afeto embaçados da neblina da noite que não se acaba;
orvalho que rega a pele fria e túmida dos viajantes,
os quis seguem as correntes na linha do horizonte.

As marés são assim, vão e voltam sem cansar;
espumas postas nos bancos de areias ferem o desejo,
brisa leve que sopra o aroma dos sonhos como de morangos no pé,
destila-se o verso em som de melodias de amores mil:
sacode a poeira, corre faceira e morre em si a voz do amor,
sobe a ladeira da espera da promessa que não vem.

O mar não ama ninguém, ele simplesmente não ama.
O mar sabe ser ele mesmo: imponente, ameaçador e dócil,
um leão voraz para os arrogantes, uma criança frágil para os poetas.
O amor é como o mar, pode matar e dar a vidaaos que navegam em suas águas profundas e encantadoras: o mar e o amor são insondáveis.

O mar em mim é amor que nunca dorme, nem se cansa;
o amor em mim é mar que desejo navegar insondável;
meu ser é mar amor; mar de mim, de amor sem fim.
Meu ser é amor que barcos navegam com suas velas coloridas,
Veleja a prosa, o canto, a poesia, a dor e a saudade,
jangadas de afetos que flutuam no amor de mim no mar sem fim".

Lá Fora




" O vento sopra lá fora, e eu, escondido no meu próprio medo,
sinto-me prisioneiro, atrás das grades de gotas da chuva que regam a incerteza.
A morte é a última estação do trem da vida que desliza nos trilhos da história.
A sorte pede carona, enquanto o futuro insiste em negar aos olhos sua clarividência.

Casulo de mim, onde abrigo a alma que chora gotas que são grades de mim,
vida que verte a saudade das tardes de invernos que se foram;
sonho que destila o aroma do amor que como flor em terra seca não quer brotar,
assim, o deserto é casa de todos nós, ali onde os homens são feitos meras sombras.

Braços frágeis de abraços sinceros abrigam o ser finito num ato de afeto,
olhar que apaga a vela que vela o desejo que se esvaiu em dor,
funeral do anelo que acolhe na capela da esperança a penugem que esvoaça solitária,
pêndulo do relógio do tempo na espera das horas que deflagram sua contumaz demora.
O vento sopra lá fora,
Quanto a mim o que resta é a dor da espera na frieza das horas".

Veleiro

















"Vi teu olhar tocar dissonante a minha face;
lua livre no céu do desejo: buraco negro no espaço sem fim;
no teu corpo ardia a fogueira das paixões: anseios infantis,
e, do chão do teu colo calei-me e fiz do silêncio meu grito;
tua palavra se fez mel em meu paladar faminto de versos,
sedento de teus sonhos,
fiz-me veleiro em mares azuis,
lugar onde dilata-se a fúria do amor nas cações dos piratas;
sim, tuas melodias, perfazem meu destino: jangada ao vento,
e, as cavernas dos teu segredos fazem-me querer hibernar seguro para sempre".

Pérola Dos Mares


“O coração dos mares é escuro como a noite,
Profundo em si mesmo, silente em seu mundo submerso;
Sua superfície é espelho do céu,
Onde Deus vê refletida a sua própria face.
Uma vida; frágil vida que se faz lágrima no silêncio,
Negror da alma que cala o oceano à voz que surge solitária,
Ostra deslizando o infinito com seu tom de púrpura e beleza,
Move o amor no fundo de um mar de afeto entreaberto para a solidão.

Sem pétalas, mas é flor, a pérola negra dos mares do amor,
Preciosa demais para ser vista facilmente na escuridão,
Somente os olhos do poeta a percebem incólume,
Viva esperança que rola no silêncio dos mares sem fim.
Sonho dos piratas,
Tesouro negro que fulmina o olhar; afeto do mar que se torna abraço,
Mar de mim, de eternas canções,
Melodias de saudade e desejos, rara fragrância da eternidade”.

O Mar De Espinho - Verão em Portugal



“Espinho é terra de sol, frio e mar,
O mar de Espinho é mar de rosas.
As rosas de Espinho são rosas de espinhos,
Mas, são rosas dos mares abertos e saudosos;
O mar de Espinho é mar profundo,
Como profundo é o amor às rosas nas canções dos poetas.

A lua viu o mar e sorriu,
O sol deu sua luz enquanto o mar franziu seu olhar faceiro;
O vento escondeu-se atrás da pedra do tempo,
Cavernas escuras que os olhos não vêem saídas,
Caminhos solitários de rumos incertos entre abismos,
Praias de ninguém onde o desejo é o pão da noite.

O mar lançou em mim suas ondas leves,
Marés de espumas brancas vertendo suas algas,
Que tom de azul visto de longe!
Seus barcos anunciam destinos,
E a correnteza leva sonhos entre montanhas submersas,
Ali onde só o olhar dos poetas percebem a vida que viaja silente.

Sim, o mar do amor da dor de amar o mar de amor.
Quem me dera ser marinheiro,
Cruzar-te a linha do horizonte sem ser visto senão apenas pelo sol,
Quem me dera ser um barco à vela, para debruçar no mar o amor,
Amor de mim que navega sorrateiro à busca do paraíso perdido,
Achar tesouros, descobrir novos mares em universos sem fim.

O mar é lugar onde moram os sonhos e as ilusões,
Sonhos de meninos que correm na areia,
Ilusões de homens que sabem que há mar
Para sempre na terra do mar que se sabe carente do sol.
Amar é ver o mar, ver o mar é dar-se à vida,
A vida é o mar em movimentos eternos”.

Esperança



"Vi os teus olhos quando não me vias;
o sol parou para o teu olhar desfilar em alamedas felizes,
teu sorriso fez calar o mar bravio e intrépido,
tua beleza fez calar minha alma anelante,
tua voz eternizou em mim o tempo;
tudo parou, e parando, parei para ver a ternura em pessoa.

A vida se fez verso quando tua mão distante tocou meu desejo,
a poesia se fez pedra preciosa, rubis que meninos descobrem nos montes;
sim, teu silêncio gritou tua alma de mulher que ama as flores,
flor de lis, cor lilás, de um olhar que despedaçou-me em saudades.
Ah! Se eu pudesse te dar uma estrela de presente!
Mas como oferecer uma estrela a outra?

Diante de ti Esperança, meu mundo se torna diminuto,
meu corpo se desfaz em pétalas,
meu ser em flor se faz ipê-florido no desejo do amanhã;
do dia que não vem no calor das horas,
dos sonhos que de ti alimentam meu tenro anseio,
sim, Esperança, és para mim o toque da eternidade".

Despedida



"A face que não beijei se foi sem dizer adeus,
o silêncio dominou meu mundo infantil e um nó se fez na garganta.
Saudade, medo, desejo de partir com a face que não beijei.
Partindo, parti-me em pedaços,
e partido ficou meu mundo; fragmentos de mim e de nós,
na terra de ninguém,
e meu corpo se fez poeira no tempo,
e a saudade um golpe da adaga que fere o amor,
meus olhos agora sem horizontes se fecham para si mesmos,
e eu, isolado, faço do meu medo meu casulo onde escondo-me,
aqui onde só desejo, só sonho, sozinho".

Roça do Coração



"Lá fora na tapera eu vi o sol arder em desejo,
sua luz aqueceu minha pele sedenta de ti,
a minha voz embargou à sombra do teu olhar,
ali, perto do cajueiro onde desenhei um coração com teu nome,
que recordação! Saudade do tempo em que corrias descalça,
na chuva, no quintal, na estrada de terra batida da roça,
onde brincar era o passa tempo mais divertido que existia,
mas você cresceu,
seu olhar distanciou-se do meu e minha voz solitária,
cantou a canção da alvorada, enquanto a assuncena pousava no milharal,
sim, o espantalho ainda está ali,
onde nossas mãos tocaram a eternidade quando se tocaram,
onde um beijo inocente deitou raízes no solo da saudade,
chão que deitei e sonhei muitas vezes,
vi-te menina, agora te vejo mulher,
mas a dor que carrego no peito é que,
embora o sol ainda brilhe e ilumine a estrada,
tu já não me vês mais,
tornei-me um mero vulto à sombra da lembrança".

A Sacada



"Uma voz se fez ouvir na sacada,
um poema, grávido de tristeza,
um verso tranzindo melodias de ninar.
Uma mulher olhando a rua da janela,
uma rua percorrida pelo olhar que deseja o mundo;
uma janela para o mundo cuja rua denuncia o olhar.
Uma mulher, tímida, solitária mas cheia de sonhos.
Uma voz se fez ouvir na sacada, uma canção de despedida;
era uma música de amor, quando o amor vai embora,
e as rosas postas nas janelas que olham para a rua,
são levadas ao vento que abraça o mundo, a mulher e seus sonhos.
Uma mulher,
a melodia e o desejo na sacada,
que doce canção".

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Valsa do Amor




"A voz do luar cantou ao som da valsa do amor na solidão da rua,
apenas um ébrio brinde nas ruas de Espinho,
a saudade tilintou em mim como taças de cristais
no toque dos meus lábios sedentos por poesias,
versos parados como pedra de tempestades;
o azul do céu coberto de estrelas sintilantes foi o cobertor da dor,
a dor da saudade que nos habita desde tempos remotos,
cavernas onde meninos sonham futuros,
janelas abertas para jardins floridos,onde um gesto era tudo,
era o afago de amores de ontem nas dores de hoje.
A saudade dos dedos que se foram sem tocar a face banhada de lágrimas".

Pétalas e Rosas




"Hoje é segunda-feira e eu estou aqui,

da minha janela, observando as flores,

uma rosa olhou para o sol e falou-me,

sussurrando sua dor.

Suas pétalas pálidas, caíam ao chão sem sorriso.


Seus espinhos ali, faziam sangrar sua alma-rosa de flor que sente saudade, saudade de uma vida que se foi para sempre, que existe somente na mente que mente, ao insistir na lembrança; sim, uma rosa me olhou marejando suas lágrimas vazias de amor.

A dor da rosa é a dor do amor que não veio, dor de todos nós mortais.

Dor de outras flores, do sol que se foi, do olhar que aspira a beleza de dias felizes.

Camélias, ipês e bromélias são flores sem espinhos, nem por isso felizes;

só as rosas transportam sua própria ambigüidade.

Espinhos perfuram pétalas que ferem o olor, que tocam a pele da rosa que na dor, expressa seu ser.


Os espinhos são das rosas um mal necessário,
porém, necessário mesmo, é o sorriso das rosas;
as rosas sorriem quando amadas.


A cor vermelha e rosada no olhar de quem ama, a rosa vermelha, a rosa branca, a rosa rosa.

A rosa quebranta o olhar de quem ama; a rosa feliz é a rosa ferida,

a rosa amada no amor dos amantes, a rosa no buquê de rosas e ramalhetes molhados,


sim, és rosa, rosa amarela, rosa régia; reina a rosa que se sabe flor, que se sabe amor,

amor na raíz, amor feliz, a rosa do povo, Drumond;
um lugar da saudade do canto de amor,


Rosa de Sarom,
um conto, uma esperança, uma varinha de condão,
um lugar do afeto que em mim registra a alegria no cicio do vento que passa,


saudade que passa;

rosa que fica, rosa que passa, amor que destila os versos de afeto, de mim, um mero mortal que transporta a rosa para eternidade".

Poesia Para Pedro






"Pedro pensava pequeno, porque partido,
Pendurado por peças, presilhas presas pelo pé,
Pífio, porão profundo padeço, pensou:
Pesado, preciso, parco, peçonhento.
Pétala púrpura, pura patícula polida.
Parado, pediu permissão para partir,
Porém, porta para Pedro partiu-se,
Poços postos por piratas perdidos.

Palavras proibidas para povo provar,
Pensantes pardais piando pelos postes,
Pedra pesada, posta petulante,
Paladar pleno por Pedro provado.
Pelejando passou pela prova,
Pedindo perdão por pecados passados,
Pequeno Pedro, pepita preciosa procurada,
Perdido, partido, possuidor possuido.
Pedro parou para poder pensar,
Pensar porque precisa perdurar,
Propor, preferidas pendências para
Passar perpetuamente pelo paraíso perfeito.

Pedro pensava pouco,
Paraíso pertence primeiro
Povo pobre partido pelo peito,
Pobre Pedro, pedra pesada.
Pesado por pensar pequeno,
Plácido, pousa pequena pérola!
Povoa perene, pirralho!
Pisa, passa, possua;
Palhaços precisam picadeiros pisar pela paz.
Pedro pediu passagem para Pai-Poderoso,
Prece profunda pintada, porosa,
Prece privada, pálida, pueril,
Porém, primorosa para Pedro.

Pedro portanto, precisava pensar,
Papai penava por pensar Pedro perder,
Pedro precisava papai perdoar,
Pedro, papai, perpétuo prazer.
Pai-Poderoso protege Pedro-papai,
Parceiros perpétuos passeando por ai.
Pontes postas por Pedro, papai e Pai-Poderoso,
Pacificadores preferindo-se plenamente.
Pontes, portais para poucos passarem,
Pontes para Pedro, Pedro para pontes,
Portas perto, parísos pensados,
Parapeitos prediletos para padres, pastores, profetas.

Pena! Pedro pensou,
Por que portas postas por pontes para Pedro?
Pedro precisa pensar,
Pedro precisa prosseguir.
Pedro, perfume perfeito,
Padece pesar, pisadura, plasma plural,
Pericarpo peregrino pelo planeta,
Poleniza Pedro, para Pedro permanecer.
Prossegue Pedro pois, Pai-Poderoso pensa por ti".

Entre as Estrelas



"Meus pensamentos estavam ali parados,
Pendurados nas estacas da estrada do tempo,
Cercados por cercas de arames que isolam mundos,
Prisioneiros no cárcere da memória onde queda o desejo.

Parte de mim deitou raízes no chão da história,
Outra parte, natureza morta, se fez esquecimento,
Invadiu o inconsciente e de lá rege-me impoluta,
Assim destila a minh´alma sua condição de incerteza.

Laços de amor e de morte em mim,
Palavras soltas, presas em bolhas de sabão,
Flutuam nos ares dos meus sonhos,
Minha condição borboleta,
Casulo onde me reencontro comigo mesmo.

Salto no abismo do pensamento,
Ruas escuras dos sentimentos,
Penugem levada ao vento,
Parte de mim que voa por ai entre as estrelas
".

Val Paraíso


"Val Paraíso aprendi a amar-te por Neruda,
um de teus filhos mais nobres.
Tuas montanhas, teus vinhedos, tuas ruas,
arrebatam-me; transportam-me por rios infindos.

Val Paraíso, lugar do meu sonho encantado;
mares de minhas lágrimas saudosas dos sonhos,
anelo de mim que se faz prece contida;
Desejo cruzar-te às ruas em dias frios.

Um dia te provarei as ruas e o vinho,
chamarei tuas delícias de minha irmã,
e em ti me farei poesia, arte, silêncio,
apenas por perceber o profundo de ti em mim.

Serei de ti conhecido e amar-te-ei amando-me,
dando-me a ti, enquanto, morador do espaço da ternura.

Val Paraíso sou teu mais devoto amante,
teu anelo de vida, paz e uma inesquecível companhia.
Quero percorrer teus vales, provar tuas fontes, dragar teus mares e sorver teu aroma.

Quero à lareira, descrever-te bela em poemas meus".

Mato Molhado


"A vida por aqui começa cedo.
O cheiro da fazenda e de estrume do gado partilham meu mundo.
O mato molhado do orvalho da manhã,
O som das vozes das aves que despertam com a madrugada,
O cicio do vento e o barulho dos insetos roçando nos múltiplos seres lá fora.
Aqui do meu lugar, ouço a canção da vida em mim.
Minha respiração denuncia minha alma anelante,
E minha mente saudosa viaja o infinito desejo que transporto insolúvel:
Vida leve, me leva mar-à-fora e me faz ver paraísos perdidos".

Vento de Longe


"Sou poeta do vento, do sol, da lua e das estrelas;
minha alma desliza sutil na força do espírito das palavras;
tormentas de mim que eclodem tempestades de amores adormecidos na tumba fria do tempo; ventanias de tenras lembranças que não querem calar. Tornados de desejos lacaios do medo de minhas próprias sombras.

Vento que me possui o encanto na terra dos sóis dourados;
Brisa leve que toca a pele de quem deseja o mundo,
De quem respira a liberdade sem descartar a fantasia de encontrar o elo perdido dos sonhos infantis, valsa suave da vida no sopro que vem dos mares; mares cansados das marés e das águas de março,

Mar em mim, de ondas causadas por ti brisa leve, ternura que refaz a paz. Teu hálito puro semeou o afeto na morada dos desejos;
Caatinga exausta da vida que se nega voltar na primavera.

Vento que vem de longe, das torres que sombreiam ingazeiros que sangram a saudade, porteiras velhas que se abrem para velhas estradas de moinhos-de-ventos. Brisa leve que leva a poeira do chão onde as serpentes deixaram seus rastros no lugar das pegadas dos que ainda virão.

Sim, teu ser invisível se pode notar, nas folhas que arrastas na dança que gira o teu corpo leve e ligeiro, impregnado de ar e ternura, fazes teu circúito, transportas as flores e os perfumes que exalam tua presença em forma de cheiro, cicio e silêncio;

Murmúrios de amor à luz da lua, compasso de passos no paço de espaços vazios de mim, fartura de ti, concha que abriga o sorriso num gesto de puro desespero. Brisa leve, és vento rasteiro, sombrio e ligeiro, livre, leve e solto.

Por onde passas deixas o ar de tua graça, e quem te percebe se encanta,
A quem tu envolves, renasce das cinzas, no entanto, a quem tu deixas tocar-te, morre por não saber-se motanha".

Luzes de Pirilampos


"Um pirilampo voou sob a fraca luz do candeeiro, na noite de depressão da lua; era a única luz que iluminava o meu olhar. Sem o olor da fumaça que ardia os olhos, assim a beleza do teu sorriso amanheceu em minha janela para o passado, e tua voz audaz perpetrou minha sorte pálida.

Não ventava no lugar da saudade e as janelas da alma continuavam cerradas para o mundo. A fogueira do anelo crepitava à fogo constante; ervas amargas espalhadas na estrada do coração, aliadas às aves de rapina que assinam e assassinam os sonhos, dor que anuncia a angústia que caminha no passo de gado.

Neurose é dor do ego que deseja infinitamente, é fome do ser que urge por instintos atendidos, é sede do id, que se sabe dono da liberdade, sedento por instantes de eternidade no corpo, refém, do superego algoz do amor, Piratas vadios em navios que rumam para o coração dos mares.

Depressão é saudade contida no cárcere do espírito, é desejo aprisionado no peito de quem grita pelo amor que não veio, é amor partido em navios que cruzam ás águas gélidas da vida que esvai-se entre os dedos, é alma enferma que afoga o afeto infindo de amores eternos vívidos, é prece calada da alma que rejeita o cálice e a cruz de uma existência sem glória.

Insônia, melancolia, tristeza, pânico, ansiedade e fobias são males dos vilões. Os heróis possuem vida, alegria, paz, autoconfiança, fé em Deus e resignação. No entanto, voltar ao útero materno é desejo inconsciente dos amantes, libertar-se do mundo é o que premia o ego que sofre junto à fonte. Taça quebrada do vinho que ninguém bebeu o amargo na festa do desespero.

O que mais quer a alma além de gozar o prazer da paixão? Depressão é querência, carência de meninos em corpos adultos, é útero que não vem, colo que se desfez, paraíso comum do Édipo de todos nós, é ânsia de morte que desfarça o desejo da vida que não tem, com a dignidade que sabe merecer.
Eros que habita o espírito e que veste-se de carne e osso, da pele que aquece os sonhos.

Um pirilampo voou sob a fraca luz do candeeiro, na noite de depressão da lua. Era a única luz que eu possuía para iluminar o meu olhar e meu corpo, à sombra da morte. Um pirilampo voou sob a fraca luz. Apagou-se o candeeiro, apagou-se o pirilampo, e aqui, meu amor, só restou minha fraca luz na penumbra do quarto longe da janela do teu olhar".

Lua



"O fio de prata que veste a luz da lua,
penetrou minha lucidez e transiu minha alma.

Memórias de mim que se refizeram num instante;
um golpe de olhar entre rajadas de ventos de outono,
açoites de pingos de chuva que regam a face cansada de tudo.

A lua é isto, luar para o coração dos apaixonados,
fases de uma vida que migra para sempre no rio da história.

Espelho d´água que reflete amores carregados de afetos;
saudade que veio para ficar, ali, no lugar onde a lágrima é o sol,
e o sorriso é pão que se come de mãos dadas, sob preces cheias de devoção.

A face oculta da lua esconde o amor que revela as marés de maio,
ruas que segredam sonhos, grades eternas de gotas de chuvas que não passam,
rosto voltado para o sol das lembranças que ficaram do dia que se foi.

Lua cheia da candura de tua face meiga em minha face rude marcada pelo tempo, afeto de mim que destila em ti a sentelha da vida que morre e renova-se em si.

Noite enluarada é o amor nas canções de invernos longínquos;
viaja a lua, viajo eu, e tu, permaneces silente em orbita de mim;
minha rotação determina tua expressão: lua nova, crescente, minguante e cheia, cheia de ternura.

Hemisfério do amor que em ti nasce proibido, podado, ceifado antes do fruto, ervas que caem no caminho, beira de mim, que bestas devoram o verde que eclode, e pés esmagam a flor e o grão.

És luar para mim e teu olhar se desloca ante ao sol da minha existência, eclípse de nós que se dá quando meu corpo solar encontra o teu corpo lunar.

Fagulhas da eternindade no espaço sideral do meu sonho infantil; paixão que me oculta entre prédios, carros e arranha-céus entre núvens e paredes cinzentas.

És de mim o desejo, poesia que decanta a tristesa, bainha de uma espada que corta o tempo e o vento.

Lua livre, és tu, bela, no céu de todos os sóis; no céu de todos os poetas, presente em todas as ruas, praças e aldeias.

Dentro dos meus próprios abismos, clareias na noite escura de mim a saudade. Iluminas meu sorriso tímido e solitário que deseja ver-te entre as estrelas, que te escreve em paredes nos desenhos rupestres, nas minhas noites sem luar.

Tua luz incinde em meu parco olhar o mistério que fecunda as sementes sob o chão. Em tua presença, sou deserto, mar, floresta, sou qualquer tela que permita o teu brilho.

Sou sol, sou céu, sou estrela d´álva, sou reflexo de ti em ribeiros que correm silentes. Escondo-me entre as fendas dos vales e das montanhas;

faço sentir-te minha ai no teu lugar, para ti, sou vento, sou poesia, sou eu, eu mesmo, longe dos predadores de emoções, ai, perto de ti, onde o amor é único som a ser ouvido à luz da lua".

Meu Sol




"A mão suave do amor desliza sutil por um universo de luzes e cores,
explosão de raios luminosos, feito ondas quando arrebentam na areia ou nas rochas dos mares do Kenia;

se espalham pelo mundo. O sol abre seus portais e respira para mais um dia de afeto às flores.

O sol é meu encanto, o afeto que toca minha pele sem culpa,
invade meu olhar, aquece minha timidez e me condensa a alma num só verso.

O sol pare arco-íris, gesta o luar e clareia o espírito e faz nascer a aurora, faz nascer outros sóis no mundo de meu Deus, mundo meu e de quem me ama.

O sol é vida, é rima, é prosa que destila a felicidade; transpassa as gretas de paredes de sapé das vilas do Tibet.

Está no vão da choupana do homem do campo, transe no oitão da casa da fazenda; não faz acepção de pessoas, ama, simplesmente ama. Sua ausência implica em morte, sua presença engrandece e vitaliza os seres.

A plantação de trigo doura nos vales, por causa de sua luz; as flores se abrem no seringuete; os rios, sob seus gestos, não se fatigam de amar o mar, onde nascem e morrem;

Seu calor aquece as pedras na estrada, afugenta os meninos que amam as sombras; o sol é só meu, minha ternura, meu bichinho de estimação estelar.

Há muitos sóis no sol. Há sol de inverno, de verão, outono e primavera.
Há sóis de poesias, e até os que nascem nas mil e uma noites no Imã.

Há sol de desertos, dos alpis, dos palácios e sol de lugares frios; mas o fato, é que há sempre um sol para quem quer amar.

Sem sóis poetas não sobrevivem, a canção perece e o amor fenece.

Teu sol é meu olhar entre abismos: nascente, dourado, poente, brando, caliente, no entanto, és estrela na minha constelação de amor sem-fim.

Sol sem poesia, é oceano sem correntes marítimas que rumam para o sul.
É céu sem luar, é paixão dos que despertam o amor vazio de estrelas, perfumes e flores.

É ternura de corações flechados desenhados nas árvores dos quintais da vida, apagados pelo tempo; sou eu sem você, você sem mim; o mundo sem nós e nossa palavra dádiva de nossos sonhos, solta no tempo e no espaço.

Sem o sol sou sal sem sabor; sem mim, o sol é mera escuridão.
Somos cumplicies um do outro, resistimos ás trevas, tocamos a essência das coisas entre o céu e a terra.

Entramos no ocaso para fazer nascer o amanhã com manhãs das manhãs floridas do Alasca".