terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Memórias de Mim




“Logo eu descobri que as coisas não são o que parecem.
Ilude-se quem pensa que olhos de crianças não vêm além de imagens;
elas não enxergam apenas a coisa dada na sua forma nua e crua,
elas interpretam e calam em si o que lêem.


É certo que meninos sabem ver a essência, o interior de cada coisa;
suas almas leves transportam em silêncio o que vêm,
levam a pureza e a verdade no olhar e vêm o ser ou a coisa em si.


Tudo passa pelo crivo de seus sentidos ainda informes.
O fato é que crianças vêm mais que coisas frias e rígidas;
elas fundem mundos, criam formas daqui, dali e d´além.


Crianças desenham sonhos enquanto pintam,
e, pintam enquanto brincam de olhar;
percebem os mundos ai ao entorno de suas vidas frágeis,
e tudo se transforma enquanto transformam tudo.


As nuvens passam a ser algodão-doce,
o sol, uma lanterna acesa em pleno dia,
e a lua, um delicioso queijo suíço;
era assim, que eu mesmo via a tudo,
quando não era visto por ninguém.


O mar, era como um céu invertido,
e, o céu, um grande lençol-azul sobre a cidade;
os rios eram estradas feitas de espelhos d´água,
e as montanhas, corcovas de camelos montados por meninos saltinbancos.


A chuva, era como uma prisão de grades transparentes,
e dela aninhava-me,
quando queria assistir as gotas saltando como carneiros na grama,
mas, sem demora, nela corria em disparada feito cavalo selvagem.


O arco-íris, era um portal aberto para mundos encantados,
longe dos olhos e da agonia da vida;
mundo distante dali, do lugar da tristeza do mundo dos adultos,
vítimas de uma vida sem glória.


Sim, sinto saudade do meu tempo de criança.
Ainda vejo o menino sorridente que fui, deitado ali na laje de casa,
adejando sobre o tempo que a tudo vence.


Nunca me despedi desta criança que mora em mim,
pois, ainda hoje insisto em olhar as coisas e as pessoas do mesmo modo,
buscando a verdade e a pureza além da imagem e do estereótipo delas”.


2 comentários:

jac disse...

mt bom pastor..amei o poema!! Verdadeiramente o senhor tem o dom de brincar com as palavras, uma benção..

Roberta disse...

Lembrei de quando, para mim, as nuvens eram feitas de algodão...e podia ficar horas buscando varios formatos nela..o dia parecia que tinham mais horas...e a imaginação de criança podia uttrapassar os limites crueis da realidade...e viajar em doces sonhos...