segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Flor da Montanha






















"Uma flor nasceu na montanha.
Sua alva cor contrastava com o azul do céu,
Copo-de-leite salpicado de amarelo em tons marrons,
pendurada entre abismos ali onde o silêncio era sua única voz.

A montanha, grávida da flor ecoa no espaço sua alegria,
a eternidade ao seus pés ante às intempéries do mundo,
luta, reluta e vence a ternura que aninha-se nas escarpas,
sorve a luz, desperta o desejo das aves
que aproximam-se de seu frágil ser.

Uma flor nasceu e a montanha.
Não pôde resistir à tão rara beleza,
chuva, sol, vento,
cardos e espinhos açoitaram suas pétalas,
nada mudou, a flor insistia em viver,
lugar-comum dos que sobrevivem,
nota sincopada na melodia dos que resistem à dor,
ao perigo e à morte.

No lago, um cisne desliza sutil ao sopé da montanha,
no ar uma águia absorve o infinito
plainando entre o céu azul e a alva flor,
um mar de núvens inibe do sol o açoite da luz,
a sombra dá lugar à quietude enquanto, a raíz em seu destino,
cava a montanha.

Uma flor nasceu e ninguém viu,
bela, rara, cara e só,
entre colibris, papoulas e o cicio da noite que logo vem,
mão alguma a afagou,
boca alguma a beijou nem seu perfume
pôde ser sentido.

Flor solitária, véu da noite que desvela o olhar,
uma oferta de amor ao ser finito
que se desfaz na manhã seguinte,
antes da próxima estação,
sob luas e sois desejantes;
uma flor, apenas uma flor,
amor em forma de simplicidade.

Na floresta,
o verde musgo dos olhos que não vêm,
nas colinas outras flores silentes
gemem suas dores no parto de outras montanhas.

Flores prenhes de sementes,
vidas que se fazem e reproduzem a beleza rara de seres finitos,
um gesto divino coberto com o manto de um mistério profundo.

Uma flor nasceu na montanha,
uma montanha nasceu na flor que reveste-se de encanto,
no canto dos poetas, nas mãos dos amantes e na solidão das savanas,
uma flor nasceu, mas quem se importa?".

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