quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

O Natal em Quixangá: Feliz Natal!




O natal em Quixangá é na primavera. O inverno se foi e o velhinho barbudo que viaja num trenó puxado por renas, nunca apareceu por aqui. Suspeitei desde o princípio que é de invernos distantes que o velhinho da roupa vermelha gosta. Durante muitos anos eu olhei para o céu para vê-lo surgir imponente e intentei surpreendê-lo outras vezes, acordado, em silêncio, no escuro, para ouvir ou ver suas pisadas no quarto ou do lado de fora. Eu adormecia ali, muitas vezes, sem sucesso algum. O meu olhar ao amanhecer percorria apenas as janelas, uma vez que em nenhuma casa naquela cidadezinha havia chaminés.

A única vantagem que tive nessa espera imaginária era o praticar da esperança. Eu nunca deixei o meu coração amargar no fosso da desilusão. Nenhum presente, nenhum sinal do homem do gorro ou saco vermelho, mas meu coração afeito à esperança, iluminava o túnel profundo de minha escuridão solitária. O meu papai Noel sempre teve uma face feminina e agreste. Ao invés de papai, eu sempre convivi com a “mamãe” Noel. Sem rena, sem trenó, no fundo de um inverno existencial, sem oh! Oh! Oh! Cruzávamos a primavera entre as flores e a saudade do papai.

Ela chegava com alegria, um brilho no olhar, nas mãos, trazia algumas roupas de chitas e alguns brinquedos quebrados numa sacola, mas pela porta dos fundos ou da frente. Cedo eu aprendi que quem entra pelas janelas, pulando os muros ou pela chaminé é ladrão e salteador; é invasor e gatuno. Quem tem a chave (acesso e direito) da casa, entra pela porta. Eu já tinha um pai ausente e invisível, não precisava de outro que fosse bondoso, mas fugidio, amável, mas que não pudesse ser notado e visto; tampouco eu queria um que me viesse de assalto. Os melhores pais são aqueles que estão presentes em nossa vida, que se envolvem, e que além de tudo, são visíveis para o olhar da criança que deseja o amor nos braços do abraço.  

 Eu sempre gostei do natal, me lembra correr nas ruas, mas também família, luzes que piscam; músicas com harpas e comilança (perus, passas e champanhe). Entretanto, o natal remete-me ao Cristo, seu nascimento, a esperança de um povo e do mundo inteiro. Um menino, um líder, um amigo; a vitória do amor numa manjedoura. No exílio da pobreza, este se inscreveu como o mais tenro presente para a humanidade. O Salvador do mundo! No natal do Cristo, faltava tudo ao menino, menos o amor e a presença dos pais. Os presentes vieram de longe, por providência divina, mas não voando de rena e trenó por ai. Ouro, incenso e mirra. É tudo que o amor precisa para ser verdadeiro no sonho de uma criança.

A minha mãe, “Noel” ao seu jeito, “na nossa estrebaria”, lugar de abrigo, inóspito, mas acolhedor, nunca deixou faltar em sua manjedoura estes elementos. Por esta razão, nosso natal sempre foi perfeito. Tivemos o ouro, a riqueza do seu abraço, o incenso, o cheiro agradável de seu aroma materno acolhedor, fumaça na qual nos escondíamos, e a mirra, o perfume, essência aromática de sua fé e alegria. Cercados pela simplicidade de seu cólo, não sentíamos falta de mais nada. De mais nada mesmo!

Eu não consigo imaginar quantos meninos e meninas, adultos e crianças vivem como eu vivi em invernos existenciais, na primavera da vida. Todavia, desejo a todos os que não perderam a esperança e ainda olham pelas janelas, à espera de um milagre, um feliz natal. Deus é Pai sempre presente, ele sim providencia o que necessitamos nas quatro estações. Que a beleza do amor de Deus entre pelas portas e janelas do seu coração; desça pelas chaminés dos olhos e dos seus sonhos, quer venha de trenós e renas, quer em sacolas, bocapios, carroça, a pé ou pelos serviços dos correios.

Sejam felizes da maneira que for possível e não somente esperem por um velhinho de gorro vermelho, voando por ai. Para o papai Noel existir, precisa não ser visto, mas imaginado. Prefira o amor que se pode ver na face de quem está perto de você. Se não tiver alguém que lhe abrace, abrace a alguém. Seja você mesmo um presente de amor para qualquer pessoa e o Cristo nascerá outra vez em sua vida.

Em Quixangá ninguém fica sem abraço! Nem o papai Noel caso apareça por aqui ficará de fora. Quero apenas alertar que o espero, desde criança, mas ele nunca veio. O único que me apareceu por aqui veio vestido de saia, usava bolsa, era operária, tinha pele negra, era viúva de marido vivo, era pobre, mulher, vivia no sertão nordestino e um sorriso sem igual no rosto e seu nome era Maria de Jesus. O papai Noel foi condenado a presentear sem ser visto, amar sem ser notado, a visitar sem poder ficar. O pobre velhinho precisa de um terapeuta. Foi condenado a viver no escuro, vive na noite, é notívago e tem a tarefa insólita de entrar por chaminés apertadas e às vezes cheias de fogo. Desejo ao ancião Noel, na sua melhor idade, um feliz natal tentando fazer um natal feliz. Deixei-lhe um recado na minha janela no último inverno:

“Papai Noel, eu queria saber por que nunca vieste quando precisei? Hoje cresci, ensinei às minhas filhas a não lhe esperar. Em nossa família sentimos pena de você. Deixamos a porta aberta. Não queremos os seus presentes. Desejamos apenas que passes por aqui para lhe dar o maior de todos os presentes: o amor de nossa mãe que recebemos na sua ausência. Seja-bem vindo! E que em sua noite natalina sejas aquecido na lareira do afeto. Deixamos uma roupa azul aqui, no caso de precisar se aquecer do frio. Na mesa há um banquete, simples, mas apetitoso. No caso de não suportares ficar, queremos que nossa família lhe seja visível na sua invisibilidade. Cremos que você existe, em algum lugar entre o sonho e a realidade. A questão é que nós existimos aqui no lugar da saudade e isso nos assegura que amanhã alguém em algum lugar precisará de um abraço. Feliz natal e não se esqueça de fechar a porta ao sair, não podes correr o ricos de um ladrão levar o que não deixaste e uma idéia negativa a seu respeito corra por ai. Precisamos da idéia de que você virá no próximo ano. Há crianças que ainda crêem em você. Boa sorte!”     

Feliz Natal a todos os que sabem que a vida é mais que um sonho e um próspero ano novo àqueles que insistem em continuar sonhando mesmo acordados.      


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